fenomenologia existencial

COPENHAGEN

 

TRAILER

A história de Willian, nova-iorquino, filho de pai dinamarquês desaparecido, viaja até Copenhagen para desfazer nós e pontos obscuros de sua história familiar, e aos poucos, essa busca vai se tornando mais ampla, quase que uma jornada em busca de si mesmo, nesse sentido lembra muito um processo de psicoterapia em que sendo fiado os tecidos de nossa história abre-se a possibilidade de descobrir quem somos, ao mesmo tempo que somos transformados nesse percurso..copenhagen

No filme Copenhagen, Willian tem em sua jornada a ajuda de Effy, que representa um papel quase que terapêutico, por ajudá-lo a enfrentar a aspereza de sua história familiar Nesse caminho ambos se afetam, se descobrem, revelam segredos, o desejo de assumirem as rédeas de suas vidas e suas limitações.

Bom, essa história é contada de modo leve, sutil e tendo como cenário Copenhague, a bela capital da Dinamarca.

 

 

Anúncios

Natureza da Existência

Maltratadas, deformadas, desgastadas pelo tempo, os sapatos mais discutidos na história da arte: um par de botas pretas que Vincent Van Gogh pintou em 1886 em Paris, sem suspeitar o debate filosófico que provocaria. Até hoje, os filósofos e historiadores de arte têm visto esse quadro e discutem sobre a função da arte, o valor da interpretação e da natureza da existência.

Sapatos.VangGogh

“Caminhante, são teus passos
o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho,
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
mas sulcos de escuma ao mar.”

Antonio Machado
Poema XXIX de Provérbios y Cantares

A NOÇÃO FENOMENOLÓGICA DE EXISTÊNCIA

Trecho de Artigo do Profº Roberto Novaes de Sá  “A noção fenomenológica de existência e as práticas psicológicas clinicas”.

Uma das contribuições mais fundamentais da fenomenologia para a psicologia é a compreensão do modo de ser do homem como “existência”, tal como elaborada por Heidegger em sua obra “Ser e tempo”, de 1927. Embora de uso corrente nas chamadas psicologias fenomenológico-existenciais, nas correntes humanistas e mesmo tendo ganhado estatuto conceitual em outros discursos clínicos, a noção de “existência” carece ser permanentemente problematizada com relação a sua compreensão própria, pois a radicalidade que a torna um diferencial na história recente das idéias filosóficas e psicológicas tende a ser facilmente perdida em prol de um nivelamento com as concepções naturalistas mais usuais sobre o ser do homem.

Husserl

Husserl

Essa dificuldade não deriva simplesmente de uma negligência voluntária dos psicólogos que utilizam o termo. A noção de “existência” só pode ser devidamente compreendida à luz de uma atitude, ou modo específico de atenção que, segundo Husserl, não é aquele em que nos encontramos naturalmente na vida cotidiana, nem mesmo quando empregamos a racionalidade científica para abordar a realidade. A expressão “atitude natural” denomina nossa tendência de tomar todas as coisas que encontramos no mundo como se já sempre estivessem dadas aí, indiferentes à nossa relação de sentido com elas. O próprio sujeito é tomado como algo dado dentro de um mundo pré-existente a ele.

A diferença entre o modo de ser do sujeito e o das outras coisas restringe-se, a partir de uma ontologia cartesiana, em ter ou não uma natureza extensa, mas, para aquém desta diferença, ambos são ainda simplesmente dados dentro do mundo. Colocar-se numa perspectiva fenomenológica é suspender essa suposição “natural” de uma realidade “em si”, realizar uma epoché, retornando para as coisas apenas enquanto dadas à experiência. É envolver-se em um modo de atenção em que experienciamos com toda evidência que o mais “concreto” não é essa suposta “realidade em-si do mundo”, o mais “concreto” é sempre o próprio acontecimento imanente da “experiência” enquanto dinâmica constitutiva de sujeito e objeto.

Para nos auxiliar a uma aproximação compreensiva deste plano de constituição dos entes, que não é ele mesmo ente algum, podemos recorrer a um koan da tradição Zen Budista, conhecido e evocado por Heidegger em um diálogo ocorrido em 1958, em Freiburg, com o filósofo japonês da escola de Kioto e mestre zen da tradição Rinzai, Sh. Hisamatsu (Saviani, C., 2 2004, p., 92). Trata-se de uma pergunta que, ao invés de levar a uma resposta específica, visa deslocar a perspectiva de compreensão do interrogado. O mestre bate palmas com as mãos e pergunta ao discípulo:

“Qual é o som que surge de apenas uma das mãos?” (Samten, P., 2001, p. 41) Quando batemos a mão contra algo como uma mesa, um livro ou um copo de vidro, identificamos diferentes sons que são atribuídos aos próprios objetos.

Dizemos: este é o som da madeira, este do vidro, etc. Quando batemos uma mão espalmada contra a outra, de qual das mãos seria o som, sendo ambas iguais? Percebemos então que o som não é atributo de um objeto, surge da relação. Ampliando esta reflexão, podemos ver que todas as atribuições de qualidades que fazemos às c

Fábula-Mito sobre o Cuidado ou A Fábula de Higino

M. Heidegger

oisas, como se fossem características inerentes a uma substância, são frutos de uma simplificação ingênua. Antes de qualquer substância extensa ou psíquica, inferida como suporte de qualidades, há uma dinâmica de “originação interde
pendente” entre sujeito e objeto.

Podemos aproximar, com as devidas reservas, essa concepção budista da originação interdependente e a compreensão heideggeriana sobre a co-originariedade de homem e mundo. Essa abertura originária de sentido, jamais objetivável como algo dentro de um mundo pré- existente, é aquilo que Heidegger denominou como “existência”, “ser-aí” (Da-sein) ou “ser-nomundo”.

Psicoterapia e a questão da técnica

postagem blog

Um elemento a ser destacado entre as contribuições que o pensamento de Heidegger pode trazer à psicoterapia é a sua meditação sobre a essência da técnica moderna enquanto um modo histórico de produção de verdade que se impõe como horizonte de sentido para o mundo contemporâneo.

A psicoterapia, sendo um produto e componente da compulsão moderna de organização e administração global da realidade, somente tem chances de se tornar um espaço de meditação liberadora de outras possibilidades históricas, na medida em que alcançar algum grau de tematização desse horizonte em que ela se constituiu.

Psicoterapia que se inspira na fenomenologia existencial.

Vida e seus sentidos na clínica psicológica. Aportes da Fenomenologia Existencial

Por Marcos E. F. Marinho

cropped-cropped-lindo.jpg

É na fenomenologia que busco os aportes para compreender a experiência vivida de meu paciente e as questões que dele emergem. Busco pela observação uma compreensão não apriorista, sem rótulos ou pré conceitos sobre aquilo que se abrirá diante de mim, ao contrário, propõe-se junto com o paciente, um caminhar, que desenvolve, no processo psicoterapêutico, uma descrição daquilo que se vê, e assim, possibilitar que os sentidos se desvelem, a todos, psicólogo e paciente.

Uma observação, que leve em conta que o ser humano que busca apoio e ajuda, já existia em sua singularidade de percurso antes de uma possível reflexão teórica de minha parte. Portanto adota-se uma postura curiosa, “aprendente” e indagadora, de modo a se juntar elementos para uma descrição direta do fenômeno que se apresenta a partir da narrativa do paciente.

Ou seja, um caminho à coisa mesma, percorrendo algumas veredas abertas, que o fenômeno, ao mostrar-se, permite-nos ver.

Diante da narrativa do paciente, um fenômeno pode se desvelar, Martin Heidegger fala desse trabalho de desvelamento do fenômeno, de retirar do encobrimento, de desocultar, como uma busca por uma verdade que os gregos definiam como alétheia.

Para Heidegger, a não verdade não seria uma falsidade, mas um disfarce, um encobrimento, como algo velado.  Muitas vezes essa verdade do ser, se oculta inclusive do próprio ser (por exemplo na situação de terapia)

Nesta busca da verdade – alétheia, o retorno à coisa mesma se dá na forma como podemos tornar algo manifesto, deixar e fazer ver, mostrando-se a si mesmo, ou melhor, aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo.

Num processo terapêutico o fenômeno trabalhado, traz velamento ou encobrimento, muitas vezes pelo cotidiano, por sistemas tradicionais, teorias, ideologias e crenças. Também se considera que o fenômeno traz as marcas da sua historicidade, traz as mudanças e movimentos que situam e dão seus contornos, tal qual se apresenta no presente, aqui e agora.

“Lenha é um antigo nome para floresta. Na floresta há caminhos que no mais das vezes, invadidos pela vegetação, terminam subitamente no não-trilhado, eles se chamam caminhos da floresta. Cada um segue um traçado separado, mas na mesma floresta. Muitas vezes parece que um se assemelha ao outro. Contudo, apenas assim parece. Lenhadores e guardas da floresta conhecem os caminhos. Eles sabem o que quer dizer estar num caminho da floresta.” Heidegger, Martin. Holzwege (inéditas) apud STEIN, E. 1999.

Ao buscar aportes da fenomenologia para dar suporte ao tranbalho clínico, mira-se nos trabalhos de Heidegger, considerado como um método fenomenológico e hermenêutico, os conceitos que se referem ao movimento de dirigir a atenção para trazer à luz o que se oculta naquilo que se mostra, precisamente o que se manifesta nisso que se mostra.

O trabalho numa perspectiva hermenêutica heideggeriana, interroga pelos sentidos, visa interpretar o que se mostra, o manifesto, mas que, no início e na maioria das vezes, não se deixa ver (se oculta).

Eis a beleza do trabalho de interpretação (do psicólogo junto com seu paciente) que a condição de psicoterapia propicia.

A concepção de sentidos adotada no trabalho terapêutico se inspira na concepção heideggeriana, que se difere do uso corriqueiro da palavra “sentidos” como sinônimo de significado. Dulce Critelli (1996) fala que a fenomenologia vê significado como um conceito de algo; uma definição a respeito do que é e como é algo, portanto tem uma concretude e uma permanência.“(…) os significados estão aderidos às coisas e são socializados, testemunhados e admitidos por todos nós” (Critelli, 1996:43).

Já o sentido não é compreendido como sinônimo para o termo significado, mas como direção, como norte, como destinação. Assim, ao pensarmos sobre um sentido de um fenômeno, estamos buscando compreender o que é e como é o manifesto de algo.

A psicoterapia com inspiração fenomenológica propõe desvelar o sentido que o Ser faz para cada um de nós naquele momento e naquele tempo e então, todo um trabalho de aprendizagem do “cuidar de si” e de escolhas existenciais passa a ser feito.

Segundo Critelli (1996), o desvelamento de um sentido ocorre quando algo sai de seu ocultamento e se revela em uma de suas possibilidades, num determinado contexto, numa determinada época.

Pensando naquilo que se convencionou-se nomear como sintomas e a tentativa de se juntar peças de um quebra cabeça psíquico de modo mecânico, como antítese de um caminho por uma compreensão fenomenológica e hermenêutica, em que, as formas de expressão de um sentido do ser e do existir no mundo que não dão conta de si, numa alienação do ser que provoca sofrimentos, angústias e experiências dolorosas de “sem saídas” existenciais.

Na psicoterapia as expressões do paciente possibilita que algo saia do ocultamento, não no total de suas possibilidades, mas totalmente numa de suas possibilidades.

No desenvolvimento do trabalho e da lida do psicólogo, por meio da escuta atenta, da relação estabelecida com o paciente, dos registros sobre a narrativa trazida e pelo intrigante trabalho de interpretação que, de certo modo, surge a possibilidade de junto com àquele que busca por ajuda, descortinar toda uma construção reveladora de como os seres humanos se relacionam com as coisas, com os outros e com o mundo; e é na fenomenologia existencial que buscamos subsídios para esta compreensão.

 

 

 

 

Tecendo a vida

Por Marcos E. F. Marinho

Nossa existência pessoal não é um amontoado desorganizado de fatos, seu sentido se mostra nas histórias que contamos para nós mesmos e para os outros. O estabelecimento de uma costura, feito um alinhavo de linhos, permite compreender as possibilidades que se abrem para as transformações, tecendo, enxergamos nossas potencialidades.

Segundo Dulce Critelli, o padrão existencial se apoia em frases que as pessoas ouvem de outras ou que, acriticamente, dizem para si mesmas. Ela chama essas frases de “relatos”. São afirmações curtas e fragmentadas, muitas vezes aprendidas na infância, e repetidas ao longo da vida. Perpetuando-se pela repetição, perpetuam também, como se fosse fatalidade, um determinado modo de ser.

Não raro, as pessoas veem-se enredadas, presas a emaranhados de crenças e relatos fatalistas, estabelecendo, padrões que elas mesmos criaram e perpetuaram ao longo dos anos. Quando trazem tais “relatos” por exemplo, por meio da psicoterapia, submetendo-os ao crivo da reflexão, começam a se libertar desse padrão de estagnação, e assim, suas vidas podem retomar a caminhada, de modo mais fluído e coerente com novas possibilidades existenciais.

Na análise, trata-se de substituir os relatos acríticos e fragmentários que povoam a linguagem vulgar por uma historia pessoal construída a partir da reflexão própria do sujeito.

É esperado que, ao se apoderar dessa história, da sua história, o indivíduo ao mesmo tempo, compreenda os sentidos de seu ser, se empodere, saindo da condição de vítima passiva de uma imaginária fatalidade para se tornar autor, apropriando-se de sua história e das possibilidades que se abrem.