Depressão

Conectados e exaustos

redes sociaisConectados ao planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade, o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito, mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para existir eu é preciso o outro. (Eliane Brum)

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Este ensaio impressionante revela como é sentir depressão e ansiedade (às vezes, ao mesmo tempo)

Depressão e Ansiedade são doenças muito comuns nos dias de hoje. Se você não as tem, provavelmente conhece alguém que tenha. Porém, mesmo tão comum, é difícil explicar como é sentir depressão ou ansiedade. Ou os dois. Juntos.

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Por isso o trabalho da fotógrafa Katie Joy Crawford merece destaque

A estudante de fotografia fez um ensaio muito íntimo sobre essas duas doenças que atacam a humanidade moderna. Ela explica.

“Através deste trabalho, eu estou interpretando visualmente minha própria jornada emocional e física para que os outros possam ser capazes de compreender esse peso que tantos carregam em nossa sociedade. Os sintomas físicos da doença, tais como coração acelerado, tonturas e falta de ar, muitas vezes passam despercebidos ou são mal interpretado por aqueles que nunca sofreram de ansiedade. Embora os sintomas físicos constituem uma grande parte da desordem, o lado emocional é extremamente difícil de lidar. Ansiedade impede que o doente assuma novos riscos, explore novas ideias e saia de sua zona de conforto. Ela garante que ele nunca vai estar sozinho. Ela vai encontra-lo mesmo em momentos de alegria ou sozinho em sua mente. Ela é calma e firme, lembrando de seus fracassos passados e fabricando seus resultados futuros.

Você se vê nessas fotos?

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Eu tinha medo de dormir. Eu senti o pânico mais bruto na escuridão plena. Na verdade, escuridão completa não era assustador. Era o pouco de luz que projetava uma sombra — uma sombra aterrorizante”.

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Falavam-me para respirar. Eu posso sentir meu peito se movendo para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Mas por que sinto que estou sufocando? Eu seguro minha mão debaixo do meu nariz, certificando que há ar. Eu ainda não consigo respirar”.

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Um prisioneiro de minha própria mente. O instigador dos meus próprios pensamentos. Quanto mais eu penso, pior fica. Quanto menos eu penso, pior fica. Respire. Apenas respire. Derive. Isso vai aliviar em breve.”.

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Cortes tão profundos que parece que nunca vão se curar. Dor tão real, é quase insuportável. Eu me tornei isso… este corte, essa ferida. Tudo o que sei é a mesma dor, respiração afiada, olhos vazios, com as mãos trêmulas. Se é tão doloroso, por que deixa-lo continuar? A menos que… talvez seja tudo que você sabe”.

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Você foi criado para mim e por mim. Você foi criado para minha reclusão. Você foi criado na defesa venenosa. Você é feito de medo e de mentiras. Medo de promessas não correspondidas e de perder a confiança tão raramente dada. Você foi formando toda a minha vida. Mais forte e mais forte”.

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Não importa o quanto eu resisto, sempre estará aqui desesperado para me segurar, me cobrir, me quebrar. Todo dia eu luto contra isso. ‘Você não é bom o suficiente para mim e nunca será.’ Mas lá está ele, esperando por mim quando eu acordar e pronto para me segurar enquanto eu durmo. Ele tira o meu fôlego. Ele me deixa sem palavras”.

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Eu tenho medo de viver e eu tenho medo de morrer. Que maneira de existir!”

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“É estranho — na boca do seu estômago. É como quando você está nadando e você quer colocar os p~es para baixo, mas a água é mais funda do que você pensou. Você não pode tocar o fundo e seu coração para de bater”.

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Minha cabeça está enchendo com hélio. O foco está desaparecendo. Uma decisão tão pequena para tomar. Uma pergunta tão fácil de responder. Minha mente não está deixando. É como mil circuitos atravessando ao mesmo tempo”.

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Um copo de água não é pesado. É quase sem sentido quando você tem que escolher um. Mas e se você não poderia esvazia-lo? E se você tivesse que suportar seu peso por dias, meses, anos? O peso não muda, mas a carga sim. Em um certo ponto, você não consegue se lembrar como a luz costumava parecer. Às vezes, leva tudo em você fingir que não está lá. E, às vezes, você apenas tem que deixá-lo cair”.

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Sensação de dormência. Que contraditório. Quão apropriado. Você pode realmente se sentir dormente? Ou é a incapacidade de sentir? Estou tão acostumada a me sentir dormente que eu comparo com um sentimento real?”

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Fonte: katiejoycrawford.wordpress.com

“Depressão é quando você não consegue sentir nada. Ansiedade é quando você sente tudo demais. Sentir os dois é uma guerra constando dentro da sua mente. Sentir os dois significa nunca ganhar”.

Além de poder seguir a fotógrafa no Facebook, você também pode conhecer mais sobre seu trabalho no site oficial.

Os dados: nos EUA cerca de 7% dos adultos vivenciaram uma situação depressiva no último ano. Já a ansiedade atingiu cerca de 18% dos adultos americanos segundo relatório.

Sem espaço para a solidão

Do Site do Hospital Albert Einstein

Manter-se ativo socialmente e afetivamente contribui para espantar o fantasma da depressão na maturidade

O tempo passa rápido. Quando você se dá conta, já chegou o momento de parar de trabalhar e de os filhos saírem de casa. A aposentadoria e a possibilidade da síndrome do ninho vazio podem dar a sensação de inutilidade à pessoa que está entrando na maturidade, comprometendo o seu bem-estar. “Precisamos entender o envelhecimento como uma construção, do ponto de vista econômico, de saúde, social e espiritual”, afirma Ana Cristina Procópio de Oliveira Aguiar, psicóloga do Residencial Israelita Albert Einstein e coordenadora da pós-graduação de Gerontologia do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.

Mãos dadas para não dar espaço para a solidãoAs relações sociais e familiares são pilares incontestáveis na vida de uma pessoa, e o ideal é que ela possa continuar exercendo vários papéis ao longo de toda a sua existência – como os de esposa ou marido, mãe ou pai, amiga, companheira de carteado, parceira de viagens, etc. “Existe a preocupação de evitar que o afeto seja concentrado em uma só direção, ou seja, que a pessoa desempenhe apenas um papel.

Outro ponto que merece atenção é o do idoso que toma conta de outro idoso. É muito importante entender que, para cuidar do outro, precisamos antes de cuidar de nós mesmos”, atesta Ana Cristina.

Manter-se ativo na maturidade, cercado de amigos e com uma boa participação em atividades prazerosas, traz conforto emocional até nas situações mais adversas. Para a psicóloga, o envelhecimento ativo envolve boa saúde, segurança, vida social satisfatória, educação continuada, exercício da memória e contato com pessoas da mesma faixa etária e de outras gerações, do círculo familiar e de fora dele. Dedicar-se a trabalhos voluntários também pode elevar a autoestima nessa fase.

“Desenvolver novas habilidades, como informática, e aprender a falar com o neto via Skype, por exemplo, promove uma ressignificação das relações”, afirma Ana Cristina. “Já integrar grupos de terceira idade leva a discussões de temas inerentes à fase atual da vida, como a finitude e o legado que se quer deixar. E essa pode ser uma atividade benéfica, pois estimula o idoso a sair de casa e conhecer novas pessoas, aumentando, assim, a sua rede de suporte social”, informa a psicóloga.​​

Compreendendo a Depressão.

Depressão em metáforas

depressão“Senti um féretro em meu cérebro,

E carpideiras indo e vindo A pisar, a pisar, até eu sonhar

Meus sentidos fugindo.

E quando tudo se sentou, O tambor de um ofício, Bateu, bateu, até eu sentir Inerte o meu juízo.

E eu as ouvi, erguida a tampa, Rangeram por minha alma com Todo o chumbo dos pés, de novo, E o espaço dobrou, Como se os céus fossem um sino E o ser apenas um ouvido, E eu e o silêncio, a estranha raça Só, naufragada, aqui.

Partiu-se a tábua em minha mente, E eu fui cair de chão em chão,

E em cada chão havia um mundo

E terminei sabendo, então.”

(Tradução: Augusto de Campos)

Conhecemos a depressão por metáforas.Emily Dickinson a convertia em linguagem, Goya, em imagem. Metade do propósito da arte, é descrever esses estados icônicos.

Um cão preto chamado Depressão.

Depressão, alguns sinais e sintomas

Os sintomas da depressão são muito variados, indo desde as sensações de tristeza, passando pelos pensamentos negativos até as alterações da sensação corporal como dores e enjoos.

Contudo para se fazer o diagnóstico é necessário um grupo de sintomas centrais:

  • Perda de energia ou interesse

  • Humor deprimido

  • Dificuldade de concentração

  • Alterações do apetite e do sono

  • Lentificação das atividades físicas e mentais

  • Sentimento de pesar ou fracasso

Os sintomas corporais mais comuns são sensação de desconforto no batimento cardíaco, constipação, dores de cabeça, dificuldades digestivas. Períodos de melhoria e piora são comuns, o que cria a falsa impressão de que se está melhorando sozinho quando durante alguns dias o paciente sente-se bem.

Geralmente tudo se passa gradualmente, não necessariamente com todos os sintomas simultâneos, aliás, é difícil ver todos os sintomas juntos. Até que se faça o diagnóstico praticamente todas as pessoas possuem explicações para o que está acontecendo com elas, julgando sempre ser um problema passageiro.

Outros sintomas que podem vir associados aos sintomas centrais são:
  • Pessimismo
  • Dificuldade de tomar decisões
  • Dificuldade para começar a fazer suas tarefas
  • Irritabilidade ou impaciência
  • Inquietação
  • Achar que não vale a pena viver; desejo de morrer
  • Chorar à-toa
  • Dificuldade para chorar
  • Sensação de que nunca vai melhorar, desesperança…
  • Dificuldade de terminar as coisas que começou
  • Sentimento de pena de si mesmo
  • Persistência de pensamentos negativos
  • Queixas freqüentes
  • Sentimentos de culpa injustificáveis
  • Boca ressecada, constipação, perda de peso e apetite, insônia, perda do desejo sexual

Veja nesta animação alguns padrões de pensamento na pessoa que sofre de depressão. Procurar ajuda é fundamental. (clique na legenda pra ver em português)

A medicalização da vida

 

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“…O que antes tinha emprego discreto, hoje virou conversa de salão. Discute-se qual medicamento cada um toma, como reagiu, há quanto tempo, se o genérico substitui bem o oficial e por aí vai. E se a fala corre solta, sem o comedimento anterior, é porque uma forte propaganda convenceu muita gente de que a depressão é uma doença como outra qualquer, como quebrar o braço em um acidente ou contrair malária. Essa propaganda de fortes coloridos interesseiros da indústria farmacêutica, associada a uma medicina que se orgulha em ser baseada em evidências – aquela em que o médico não dá um passo sem pedir um monte de exames – veiculou a ideia de que você não tem nada a ver com a sua depressão, que os sentimentos são cientificamente mensuráveis e, em decorrência, controláveis.

Sobre isso, Heiddeger contava uma história engraçada. Dizia que um cientista afoito em provar suas teses de medição da felicidade e da tristeza, começou a visitar os velórios de sua cidade carregando tubos de ensaio, nos quais recolhia a quantidade de lágrimas que viúvos vertem a cada três minutos. Podemos imaginar a cena!

Mutadis mutandis, se alguém já viu um interrogatório desses que querem medir o estado depressivo – com algumas nobres exceções – verá que é difícil escapar de ser tachado de doente, quando perguntas como essas lhe são dirigidas, simultaneamente: -“Você tem dormido pouco, ultimamente?”, ou: -“Você tem dormido muito, ultimamente?”.

Por que essa euforia da depressão? Será mesmo, como muitos respondem, por uma desregulação dos níveis do neurotransmissor serotonina? A serotonina ficou até popular, todo mundo fala dela como do colesterol. Ela é íntima. Agora, por que a serotonina ficou alterada de repente em tanta gente? Alguma epidemia viral de vírus anti-serotonina ou coisa que o valha? Não parece.

Prefiro pensar que se há muita depressão – lato sensu – é porque sofremos uma revolução dos parâmetros que atuam na formação da identidade. Na saída da sociedade moderna para a pós-moderna, não temos mais termômetros de certo e errado que serviam para as pessoas se orientarem se estavam bem ou mal. Com o fim desse maniqueísmo, nossos tempos exigem maior responsabilidade individual no seu bem estar. Aí, muitos fraquejam. Dou um exemplo simples: uma pessoa cruza com um conhecido na rua e o cumprimenta. O outro não responde e segue seu caminho. Qual a primeira pergunta que vem na cabeça de quem fez o cumprimento? O que vem é: -“O que foi que eu fiz?”, no sentido de uma bobagem que ele teria cometido motivo da falta de resposta ao cumprimento. Quando a identidade, como nesse caso, titubeia, ela se regenera, paradoxalmente, na auto-depreciação. Daí para se sentir deprimido é um pequeno passo. E, para complementar a receita, como estamos na época da medicalização da vida, na qual se acredita que para tudo tem remédio, pronto, tasca antidepressivo nele.

Triste tempo esse, realmente, em que tentam dessubjetivar a responsabilidade pessoal frente aos sentimentos. Mas não vai funcionar, como nunca funcionou na história da humanidade quando já tentaram amordaçar o desejo humano.

Ser feliz dá um trabalho danado, chega até a assustar, mas não mata não”.

(Jorge Forbes, in trecho de artigo publicado na Revista istoÉ, Setembro, 2013)

O tratamento da depressão

“Se há alguma coisa de inteiramente fracassada no tratamento do sujeito deprimido, é estimulá-lo, mostrar que ele tem condição, mostrar que ele tem possibilidade, e que, afinal de contas, não precisa ficar assim. Isso não muda absolutamente nada. É perda de tempo. Aliás não só é perda de tempo, porque nunca se perde só tempo, se produz dano com isso. O sujeito fica mais refratário a falar o que acontece com ele (…)
 
(trechos do Caderno do Seminário: Neuroses e Depressão Lições I à V, do Instituto de Psiquiatria de Campinas, em seminário realizado pelo psicanalista Mauro Mendes Dias, 2003).

Depressão, o mal do século 21

“A depressão é um problema de saúde pública, e será o mal do século 21, juntamente com a síndrome do pânico”, afirma Sílvia Ivancko, psicoterapeuta e psicóloga do Instituto de Cancerologia de São Paulo. Os números da depressão são mesmo alarmantes: embora não se tenha um cálculo exato, estima-se que cerca de 30% da população mundial sofra da doença, sem saber.

“O maior problema com a depressão é o desconhecimento. O indivíduo deprimido está doente, sofre muito, mas sua falta de interesse pela vida costuma ser vista como preguiça ou falta de caráter”, explica Sílvia.

Quimicamente, a depressão é causada por um defeito nos neurotransmissores responsáveis pela produção de hormônios como a serotonina e endorfina, que nos dão a sensação de conforto, prazer e bem-estar. Quando há algum problema nesses neurotransmissores, a pessoa começa a apresentar sintomas como desânimo, tristeza, autoflagelação, perda do interesse sexual, falta de energia para atividades simples.

Em geral, em algum momento de suas vidas, uma em cada cinco pessoas experimentará pelo menos um episódio depressivo. Mas Sílvia Ivancko explica que, embora trate-se de um distúrbio químico, a depressão sempre tem, em sua raiz, algum motivo psicológico. Assim, seu tratamento inclui, necessariamente, a psicoterapia. “O remédio ajuda muito, mas ele não é eterno. Se a causa primeira não for tratada, a depressão voltará”

Fonte: [url=http://saude.terra.com.br/interna/0,,OI616654-EI1712,00.html]Terra[/url]

Quando os pensamentos negativos se tornam depressão?

Pesquisa indica que suprimir pensamentos negativos pode ajudar milhões de pessoas a não desenvolverem depressão. Segundo o estudo, é essencial a identificação desse processo de pensamento antes que ele se consolide.

Jaclene Zauszniewski, da Case Western Reserve University, desenvolveu um questionário de oito itens, denominado “Depression Cognition Scale (DCS)”; Tal questionário demanda aos indivíduos que respondam questões sobre incapacidade, desespero, falta de esperança, falta de propósito, desvalorização, impotência, solidão, vacuidade e falta de significado, usando uma escala que varia de “concordo plenamente” até “discordo plenamente.

O objetivo do estudo era determinar o exato momento onde o pensamento negativo passa a estabelecer um padrão com a crise de depressão clínica, mesmo sem nenhuma expressão emocional ou sintoma físico associado à mesma.

Os autores buscaram primeiramente um score no questionário que apontasse o momento onde os sujeitos deveriam suprimir o pensamento negativo como prevenção a depressão; Os mesmos então concluíram que um score de sete no DCS, associado a fatores individuais e ambientais, demonstraria tal momento, sendo que os indivíduos deveriam iniciar estratégias para a troca de pensamentos negativos por positivos.

Participaram no estudo 629 adultos, que responderam previamente questões através da Internet; A faixa etária dos participantes variava de 21 a 84 anos, sendo que setenta por cento dos mesmos era do sexo feminino, sendo sua maioria com formação superior e com renda anual acima de quarenta mil dólares.

Fonte: Psych Central

Sombra do meio-dia. A depressão.

Dor ou alegria, sol ou nuvens, para a depressão tanto faz. Quando ela decide atacar, a única defesa é atacar antes, diz autor de best-seller

Mônica Manir – O Estado de S. Paulo

Quando Andrew Solomon escreveu O Demônio do Meio-Dia, mergulhou fundo nas imagens. Só assim, quem sabe, alguém que nunca viu a cara da depressão poderia entender essa dor. Uma das imagens era a da trepadeira que tomou conta de um carvalho centenário. “Só bem de perto se podia ver como haviam sobrado poucos ramos vivos, e quão poucos e desesperados gravetos brotavam do carvalho, espetando-se como uma fileira de polegares do tronco maciço.”

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O carvalho centenário era o carvalho da sua infância, e a trepadeira de fato o sugou. A depressão Solomon a viveu na alma, num estágio severo, depois de a mãe morrer num suicídio assistido, após longo tratamento de câncer. “No final, eu estava compactado e fetal, esvaziado por essa coisa que me esmagava sem me abraçar.” Esse americano-britânico, a um mês dos 50 anos, tinha 31 na época. Levou mais cinco anos para compor uma anatomia da doença que em 2001 ganhou o National Book Award e em 2002 foi finalista do Pulitzer.

Se O Demônio do Meio-Dia, lançado no Brasil pela Objetiva, emerge aqui nessa semana, é por causa do Dia Internacional de Prevenção ao Suicídio. Na terça-feira foi lembrada a taxa mundial de suicídio divulgada pela OMS: entre 10 e 30 por 100 mil habitantes. O Datasus soltou o número de 9.852 brasileiros que se mataram em 2011. Considerando-se a subnotificação, presume ser maior. No geral, com o que corroboram vários estudos, cerca de 90% dos suicídios estão associados a estados depressivos.

“Depressão e suicídio são entidades separadas que com frequência coexistem, influenciando-se mutuamente”, afirma Solomon. Por falta de uma, ele propõe políticas públicas para as duas, com formação de profissionais de saúde e ferramentas na medida para distúrbios ainda sub ou sobretratados.

Nesta entrevista, feita a partir de Cleveland, Ohio, o escritor menciona o novo livro, Longe da Árvore, que será lançado em outubro pela Companhia das Letras. São mil páginas sobre o universo de famílias cujos filhos são marcados pela excepcionalidade. Seu foco na nossa conversa, porém, é o tratamento daquilo com que Solomon precisa conviver eternamente, à espreita de que a trepadeira queira subir novamente pelos seus pés: “Toda manhã e toda noite, olho para as pílulas na minha mão: branca, rosa, vermelha, turquesa. Às vezes parecem uma escrita, hieróglifos dizendo que o futuro pode ser muito bom, e que devo a mim viver para vê-lo”.

O senhor costuma dizer que a depressão ceifa mais anos do que a guerra, o câncer e a aids juntos. Em suas palavras, ela pode ser “a maior assassina da Terra”. Como explicar a escala do problema?

A variação do estado de ânimo é uma vantagem da evolução da espécie. Sem a capacidade de ser triste, por exemplo, não teríamos o amor como o conhecemos, já que ele contém necessariamente a sensação da perda antecipada, que aumenta nosso apego à pessoa. A depressão é uma disfunção desse espectro. No entanto, como é contígua à tristeza e à ansiedade, é difícil regulá-la. Ainda assim, provavelmente temos mais casos de depressão nestes tempos modernos do que tivemos ao longo da história. São tempos eletrônicos, superconectados e superpovoados, que nos impõem tensões não vividas no passado. Com novos discernimentos, diagnosticamos a doença com mais frequência. E porque temos um tratamento mais eficaz, há um incentivo para que as pessoas se identifiquem com essa condição. Contudo, apesar dessas ferramentas clínicas (drogas, psicanálise, terapia cognitivo-comportamental, terapia eletroconvulsiva, etc), a maioria das pessoas com depressão não recebe tratamento, o que é um desastre para a saúde pública.

Por que não recebem tratamento?

A depressão é, em geral, resultado de uma vulnerabilidade genética desencadeada por circunstâncias externas. Podemos supor que a vulnerabilidade atinja todas as classes sociais – e, em seguida, perceber que a experiência dos pobres é mais estressante e, portanto, deve levar a uma maior taxa de depressão. A questão é que pessoas com uma vida confortável que se sentem arrasadas o tempo todo tendem a perceber a estranheza desse sentimento e procuram tratamento. Já os pobres acham que o que sentem é compatível com suas vidas, e não lhes ocorre que estejam deprimidos. Muitas vezes, nem estão deprimidos por causa de problemas externos, mas a depressão os desvitaliza de tal forma que os impede de melhorar de vida.

Não externar fragilidades também pode dificultar o diagnóstico? Vivemos em uma sociedade que não suporta lamúrias?

Não acho que o lamento tenha alguma vez sido popular. Como um amigo meu disse certa vez, “autopiedade não dá bilheteria”. Mas acho que devemos fazer uma distinção entre choramingar num encontro social e identificar a depressão num quadro clínico. Depressão é uma experiência de dor intensa, por vezes tão intensa que a única opção parece ser o suicídio. Buscar tratamento para essa dor é a coisa sensata a fazer. Manter-se em silêncio não traz benefício a ninguém.

A vida virtual e a fragilidade nas relações sociais e familiares podem aumentar o sentimento de vazio existencial?

Sem dúvida. Seres humanos precisam interagir com outros seres humanos; quando interagem principalmente com uma tela de computador ou com um aparelho de televisão, tornam-se alienados e descontentes. A depressão é uma doença da solidão, e aqueles com relações familiares frágeis partem de um lugar ainda mais solitário. Muitas vezes, as pessoas que estão deprimidas acham a interação humana estressante, e se isolam. É importante lembrar que exigir reação de uma pessoa muito deprimida pode exacerbar a doença. Mas fazê-la perceber quão realmente é amada é essencial na sua recuperação.

Há muito charlatanismo nos tratamentos?

Há um charlatanismo sem fim. Mas, às vezes, o charlatanismo funciona. Se você tem câncer no cérebro e alguém disser que ficará melhor se plantar bananeira por 20 minutos toda manhã, você continuará com o câncer no cérebro e provavelmente morrerá com ele. Mas se você tem depressão, alguém disser o mesmo e você se sentir melhor com essa prática, então de fato está melhor naquele momento: afinal, a depressão é uma doença do sentir. Fazendo essa ressalva, acho perigoso perseguir tratamentos alternativos e adiar os comprovados, porque, quanto mais tempo procrastinar o tratamento da depressão, pior ela vai ficar. E tudo que se quer é dar a volta por cima quanto antes. Há pessoas que tomam medicamentos de que não precisam, e há pessoas que não recebem a medicação necessária. Estou mais preocupado com os da segunda categoria, mas ambos são problemas.

O gatilho para a depressão é necessariamente negativo?

O gatilho é geralmente uma forma de estresse, e eventos positivos podem ser tão estressantes quanto os negativos. Uma interrupção de estabilidade, uma ruptura do status quo, tudo isso pode levar à depressão. Algumas pessoas ficam deprimidas quando mudam de emprego, mesmo que quisessem fazê-lo. O mesmo acontece quando algumas se casam ou têm filhos.

Como lidar com a possibilidade de um novo colapso?

A depressão é uma doença cíclica, e a maioria das pessoas que teve um episódio terá outro. A primeira coisa é saber disso e estar preparado. A segunda é certificar-se de que você tem um bom tratamento. Eu, por exemplo, tomarei medicação e farei terapia o resto da vida. Mas, além disso, conheço os sinais de alerta e tento ser sensível a eles. Quando começo a me sentir mal, volto a ser rigoroso com meus horários de sono, com os exercícios, com tensões desnecessárias. É importante planejar essas estratégias enquanto você está se sentindo bem, caso a depressão volte a bater à porta. Às vezes, com terapia e medicação, é possível evitar uma recaída, mas muitas vezes não é. Quase sempre é possível, no entanto, que as recaídas sejam menos frequentes e profundas.

A depressão varia de cultura para cultura?

Na essência, é a mesma. Eu me propus a quebrar a ideia de depressão como uma doença da modernidade ocidental e de classe média, demonstrando que existe ao longo do tempo (Hipócrates fez uma das melhores descrições do distúrbio); que existe em todas as culturas (fui olhar a depressão entre os inuits da Groenlândia, entre os sobreviventes do Khmer Vermelho no Camboja e examinar rituais tribais para tratar a doença na África Ocidental); e em todas as classes. A ansiedade aguda pode ter um foco diferente, por exemplo. Mas sua característica fundamental é surpreendentemente consistente.

No ano 2000, 815 mil pessoas tiraram a própria vida. No Brasil, tivemos um aumento de 30% na mortalidade por suicídio entre os mais jovens, homens especialmente, nas últimas duas décadas. Mas pouco se trata do tema. O tabu em torno do suicídio pode comprometer o diagnóstico da depressão, considerada uma de suas principais causas?

É verdade: quase todo suicídio é resultado da depressão. Algumas pessoas cometem suicídios racionais porque têm, por exemplo, uma doença terminal avançada e não querem morrer sentindo uma dor insuportável. Mas, em geral, o suicídio é o ponto final de uma depressão não tratada. A natureza epidêmica do suicídio é resultado da nossa falta de cuidado com a saúde mental, a visão corrente de que as doenças mentais não são doenças reais. Elas são doenças reais, e elas matam pessoas. Prevenção é um imperativo urgente para os governos e agências de serviços sociais. As pessoas podem ser resgatadas da beira do precipício.

A depressão cresce entre as crianças?

Sim, em parte pelas razões pelas quais está aumentando em toda a sociedade, mas também porque as crianças estão sob mais pressão, são mais superestimuladas, mais levadas a se movimentar de um lugar para o outro e de escola para escola. Isso acontece porque os pais estão ambos trabalhando fora, e as crianças têm ficado com uma variedade de cuidadores que as amam menos que os pais. Isso acontece por causa do colapso da família.

No seu último livro, Longe da Árvore, o senhor conta histórias de pais que não apenas aprendem a lidar com seus filhos deficientes como acham um significado profundo em fazer isso. Por que escolher esse tema?

Eu sou o filho gay de pais heterossexuais, e sempre me impressionei com quão difícil era para a minha família me entender. Se compartilhássemos a mesma qualidade definidora de identidade, talvez fosse mais fácil. Tempos depois, numa missão jornalística, descobri que a maioria das crianças surdas nasce de pais que ouvem, e que elas se aproximam entre si na adolescência. Em seguida, um amigo de um amigo teve uma filha anã, e percebi que a maioria dos anões nasce de pais de estatura padrão. Enfim, constatei um padrão de pais que têm filhos profundamente diferentes deles, e vi que todas essas crianças tinham algo em comum, assim como essas famílias tinham semelhanças entre elas. Quando se conhece a experiência de negociação entre pais e filhos tão diferentes, de repente se está falando da maioria da humanidade. Nossas diferenças nos unem. Eu queria escrever um livro não sobre o sofrimento, mas sobre o amor – sobre quantos tipos de amor podem prosperar mesmo quando as circunstâncias parecem se armar contra eles.