Marcado: comportamento

Conectados e exaustos

redes sociaisConectados ao planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade, o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito, mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para existir eu é preciso o outro. (Eliane Brum)

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Procrastinação

depressao_01A palavra quer dizer adiamento, delonga. Para quem sofre com o problema cotidianamente, em geral consiste em trocar a execução de uma tarefa importante, mas pouco prazerosa, por pequenas distrações.

O hábito de perder o horário para o trabalho, apesar de ter consciência sobre o sofrimento que essa atitude pode gerar, é uma mostra de como pode ser difícil deixar de procrastinar.

A prática pode servir para adiar atividades mais prosaicas, como arrumar o quarto ou responder a um e-mail. Mas também outras mais relevantes, como terminar um relacionamento, escrever a dissertação de mestrado ou dar os passos para mudar de carreira.

Além do estresse cotidiano de chegar atrasado, a procrastinação pode tornar irrealizáveis atividades complexas que exigem constância e persistência, como aprender a tocar um instrumento, ou finalizar um livro.

Os resultados são: frustração, baixa autoestima e uma gaveta abarrotada de projetos não realizados.

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Cutting ou a automutilação

A auwindowslivewriterquetalsereinventar-7a6freinventar-3tomutilação ou cutting não tem como objetivo chamar a atenção, mas funciona como uma válvula de escape para aliviar o sofrimento. Esses pacientes acabam usando esse “analgésico” para dor emocional. Quanto mais cedo o seu transtorno for tratado, maiores são as chances de a prática não se repetir. A automutilação ou cutting é reconhecida como um transtorno mental desde 2013, no DSM V.

Consumo e subjetividade

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Por Marcos E. F. Marinho

Desde os primórdios da economia de mercado, em fins do século XVIII, a aquisição de determinados produtos e mercadorias serviu para definir a origem social, cultural e econômica do consumidor. Esta dinâmica acentuou-se sobremaneira quando a economia de mercado se consolidou e incorporou o consumo massificado e em escala, a partir da década de 1950.

Em poucas palavras, mais do que atender às necessidades materiais das famílias e dos indivíduos, rapidamente se passou também a vender produtos e mercadorias que dessem ao comprador certa distinção cultural ou de classe. Foi assim que marcas famosas adotaram, em sua comunicação com o mercado consumidor, a estratégia de se associarem a uma ideia, mais até do que a um produto.

De certo modo, o mercado consumidor é visto de forma fatiada, se assim podemos dizer. Há produtos, por exemplo, para mulheres, jovens negras, da classe C, e desse modo as propagandas se incubem de produzir todo um universo imaginário, que inclui comportamentos e estilo pessoal predeterminado para este público especial. Portanto, ao adquirir este produto, o individuo se filia a este modelo.

Temos então uma dinâmica em que se produzem desejos e a forma que se consome torna-se um importante marcador de identidade nos indivíduos. Ao falarmos dos jovens, ao adquirirem determinadas mercadorias por meio da compra, isto já serve para definir “quem ele é” em seu meio social.

É inegável a influência da publicidade e da moda como potentes ferramentas de sedução e fruição de desejos, indo ao encontro das aspirações individuais de ascensão social via aquisição de mercadorias.

Não são raros os momentos em que nos deparamos com a compra de produtos de que não precisamos, ou com cujos custos não poderemos arcar. Isto é visível no ciclo de endividamento das famílias para aquisição de automóveis, eletrodomésticos e imóveis que carregam em si a marca do sucesso profissional e social.

A marca de sucesso é frequentemente expressa pelas roupas que se usa; por seu automóvel; pela decoração da casa; pelos restaurantes que frequenta; pelas viagens que faz etc. Estes bens e produtos trariam a promessa de se sentir admirado e aceito, o que possibilitaria então uma sensação de bem-estar e possivelmente daria ao portador equilíbrio emocional. Não é pouca coisa!

No entanto, o custo de tudo isso se torna elevado; a corrida para o sucesso via consumo e seus símbolos resultam em diversos distúrbios psicológicos: estresse físico e mental, insônia e dores musculares crônicas, sintomas hipocondríacos, transtornos da imagem corporal e síndromes de dependência química, desânimo, depressões, síndromes de pânico e fobias sociais que se manifestam em estatísticas variadas.

As perspectivas oferecidas ao jovem em uma sociedade de mercado perpetuam um modo de vida que estreita os horizontes em uma única direção: a busca do sucesso econômico como marcador de felicidade, no entanto, é preciso apresentar a possibilidade de se constituir outros sentidos e outras formas de subjetividade que levem em conta formas mais profundas de existir e se constituir na vida e no mundo.

Relações afetivas e sexualidade jovem.

Por Marcos E. F. Marinho

Escolher por quais caminhos seguir e que decisões tomar é difícil em qualquer fase da vida. Durante a juventude, tomar decisões e fazer escolhas são grandes tormentos, que geram dúvidas e conflitos. Quando o assunto é a sexualidade, as dúvidas parecem ser ainda maiores. O comportamento do jovem mudou nos últimos anos. A sexualidade, muito explorada pela mídia, é banalizada, assim como os relacionamentos afetivos.

A aparente liberdade – a sensação de que tudo é permitido – gera conflitos, principalmente entre os que estão vivendo um momento de transição entre a adolescência e a vida adulta. Muitas vezes se estabelece uma forte tensão entre seguir os valores familiares ou assumir o comportamento adotado pelo grupo.

Quando o caminho escolhido é o de se inserirem a qualquer custo em um grupo, os jovens adotam comportamentos rebeldes para serem aceitos – passam a consumir de forma abusiva bebidas alcoólicas e drogas e assumem comportamentos sexuais de risco. Esses comportamentos trazem resultados muitas vezes não imaginados, com consequências duradouras, como os casos de gravidez não planejada ou doenças sexualmente transmissíveis.

Os jovens estão iniciando a vida sexual mais cedo e a sexualidade tem sido discutida de forma mais “aberta” entre as pessoas e nos meios de comunicação. Não há ausência de informação, mas uma grande dificuldade de reflexão sobre o tema. Este aparente ambiente de liberalidade nas formas de viver a sexualidade ainda esconde mecanismos de repressão velada e preconceituosa sobre o assunto.

Isso fica evidente nos debates sobre as relações homossexuais, nos ambientes domésticos e familiares e em instituições como a escola e as igrejas. O mesmo pode ser refletido sobre a exploração da imagem feminina, ainda vista como objeto de consumo ou mesmo pressões de grupo sobre a questão da virgindade feminina, hoje tida como um problema para muitas jovens, levando-as a iniciar a vida sexual de forma precipitada.

Quando observamos os relacionamentos amorosos, o cenário não é menos complexo. Desde a década de 1980 utiliza-se a expressão “ficar”, uma nova forma de se relacionar em que as pessoas mantêm contatos sexuais e/ou afetivos durante um curto tempo, sem que isso signifique assumir um compromisso afetivo duradouro. Aparentemente, esta forma de relacionamento sugere maior liberdade, mas está repleta de regras que variam conforme o grupo social a que pertencem e ao momento histórico.

De todo modo, o “ficar” pode ser visto como maior possibilidade de experimentação, de conhecimento sobre si e sobre o outro – o funcionamento do próprio corpo, sensações prazerosas e de toque com o outro – sem a obrigação do compromisso, do vínculo afetivo. O seu reverso é o “ficar com” banalizar as relações, levando os jovens a ver o outro como coisa ou objeto – o que, não raro, leva a frustrações e ressentimentos.

E, ao banalizar as trocas afetivas, os jovens reproduzem a dinâmica presente no consumo, ou seja, a ordem é manter a relação enquanto ela trouxer satisfação e substituí-la por outra, se esta prometer ainda mais satisfação. Relações amorosas desse tipo, com a possibilidade de término a qualquer momento, geram ansiedade permanente.

Nota-se, a partir dos anos 1990,  a tentativa de restauração de modelos tradicionais e familiares, a adoção de alianças e anéis de compromisso e casamentos religiosos em alguns grupos juvenis; e, em grupos minoritários de ascendência religiosa, a valorização da virgindade e da castidade antes do casamento como modelos de pureza de sentimentos e aceitação da tradição. Situam-se como reação às mudanças e à fragilidade das relações e trocas afetivas e visam resgatar aspectos perdidos dos relacionamentos amorosos das gerações passadas.

De todo modo, a família, a escola e os educadores podem contribuir na reflexão sobre essas questões promovendo o debate sobre elas, dando voz e mediando as reflexões dos jovens, de forma respeitosa, oferecendo elementos para que os jovens possam, independentemente do formato, construir relações substantivas, ricas em significado, em realização amorosa e sexual, com responsabilidade sobre si e o outro.

A psicoterapia também se coloca como importante elemento de reflexão do jovem e de auxilio na constituição de sua identidade adulta nessa etapa da vida, possibilitando um processo de autoconhecimento, de escuta analítica e de ressignificação das suas relações.

E o que quer o desejo?

O escritor argentino Carlos Maria Domingues traduz lindamente o sujeito da compulsão: “Não tem limites. Está à mercê de seu desejo. E o que quer o desejo? Se me permite uma observação…achar seu limite”.

"O escritor argentino Carlos Maria Domingues traduz lindamente o sujeito da compulsão: “Não tem limites. Está à mercê de seu desejo. E o que quer o desejo? Se me permite uma observação...achar seu limite”."

Bullying

criança sofrendo bullying

Pode ser uma agressão física sistemática ou mais sutil, como a exclusão frequente de uma brincadeira – que mal é notada pelos adultos. Não importa a forma, o bullying exige uma atuação da família e da escola para diminuir o sofrimento infantil. Quando são vítimas desse tipo de agressão, as crianças tendem a ter problemas de socialização, timidez e autoestima baixa no futuro.

Professores precisam estar atentos e manter um bom canal de comunicação com os alunos. E os pais devem estar presentes na escola, cobrando esse cuidado. Uma situação que é fácil para determinada criança pode ser constrangedora para outra. Por isso a receita é a sensibilidade de todos. Mas intervir é obrigatório.

O ego frágil dos homens

forças

Eles não conseguem encarar suas fraquezas, muitos menos contá-las

por Ivan Martins

Foi um colega de trabalho quem disse a frase inesquecível: você percebe que foi humilhado, que seu chefe passou dos limites, quando não consegue contar para sua mulher a bronca que levou no escritório.

Esse comportamento – que me parece rigorosamente verdadeiro, além de universal – revela muito sobre a psicologia masculina e sobre suas desvantagens em relação ao jeito como as mulheres lidam com o mundo e com elas mesmas. Homens não dizem a verdade. Eles contam vantagem, enquanto as mulheres contam tudo.

Pensem numa roda de mulheres discutindo o cotidiano do trabalho. Parece um muro de lamentações. Elas descrevem em detalhes as humilhações a que são submetidas, falam dos sapos terríveis que engoliram, descrevem sem pudores a própria covardia ao lidar com a agressividade do chefe ou da chefe.

Na mesma situação, os homens mentem e omitem. A grosseria do chefe que ficou sem resposta se transforma numa discussão épica. A bronca degradante vira um pedido de demissão em voz alta. A covardia, o recuo, o rabo entre as pernas, são contados com cores irreconhecíveis – ou silenciados, como se não houvesse acontecido.

Isso torna difícil entender a vida dos homens quando contada por eles mesmos. São tantos os filtros, tantas as distorções, que a realidade fica de fora. Isso vale para sexo e romance também. Quando o sujeito é demitido ou tem um enfarte ou é abandonado pela mulher, ninguém entende o que aconteceu. Ele não era amado, respeitado e desejado?
Como disse Fernando Pessoa no Poema em linha reta, os homens são todos príncipes.

Agem assim porque, ao contrário das mulheres, são incapazes de lidar com a realidade de suas próprias fraquezas. Não admitem para eles mesmos suas falhas de caráter. Movem-se por um código de honra inatingível, cruel, pueril, que determina suas vidas desde a infância – e continua a valer, como se fossem meninos, ao longo da vida adulta, embora ela demande outro conjunto de valores e emoções.

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie descreve essa questão de forma luminosa. Ela diz que o ego dos homens é frágil, e isso obriga as mulheres a diminuir-se o tempo inteiro, para não feri-los ou humilhá-los. Que casal não se reconhece nessa frase?

Sendo homem, submetido 24 horas por dia às regras draconianas da masculinidade – que repudia o medo, não tolera a fraqueza, despreza a hesitação –, frequentemente tenho inveja das minhas gatas.

Carlota e Elisabeth vivem num mundo mais simples. São como são. Cada uma tem seu temperamento, e não há glória ou vergonha nisso. Carlota é agressiva e mandona. Elisabeth é doce e arisca. Outro dia, quando um cachorro passou pela porta do apartamento, Carlota se atirou sobre ele primeiro, Elisabeth veio logo atrás. Acharam que era uma questão de sobrevivência.

Às vezes me parece que as mulheres parecem as gatas. Elas se aceitam como são, vivem na realidade, não se batem contra moinhos. Seus conflitos são com o mundo, não com elas mesmas. Estão mais preparadas para ser felizes, acho. Vejo grandeza na fraqueza feminina – e muita fraqueza na aparente fortaleza dos homens.

Fonte: Época

Ansiedade Generalizada

transtorno_de_ansiedadeO transtorno de ansiedade generalizada é basicamente uma preocupação ou ansiedade excessivas, ou com motivos injustificáveis ou desproporcionais ao nível de ansiedade observado. Para que se faça o diagnóstico de ansiedade generalizada é preciso que outros transtornos de ansiedade como o pânico e a fobia social- por exemplo= tenham sido descartadas. É preciso que essa ansiedade excessiva dure por mais de seis meses continuamente e precisa ser diferenciada da ansiedade normal.


Preocupar-se e ficar ansioso não é apenas uma reação normal, mas necessária para a boa adaptação individual à sociedade e ao ambiente. Como o estado de ansiedade perturba a visão que a pessoa tem a respeito de si mesma e a respeito do que acontece no ambiente é necessário que esse diagnóstico seja sempre feito por um especialista.

No caso do paciente ser um profissional da saúde mental, por um outro especialista que não ele próprio. A informação das características da ansiedade generalizada não é suficiente para que uma pessoa se autodiagnostique.

Diagnóstico
Uma das maneiras de diferenciar a ansiedade generalizada da ansiedade normal é através do tempo de duração dos sintomas. A ansiedade normal se restringe a uma determinada situação, e mesmo que uma situação problemática causadora de ansiedade não mude, a pessoa tende a adaptar-se e tolerar melhor a tensão diminuindo o grau de desconforto com o tempo, ainda que a situação permaneça desfavorável. Assim uma pessoa que permaneça apreensiva, tensa, nervosa por um período superior a seis meses, ainda que tenha um motivo para estar ansiosa, começa a ter critérios para diagnóstico de ansiedade generalizada.

Uma vez eliminada a ocorrência de outros transtornos assim como eliminada a possibilidade do estado estar sendo causado por alguma substância ou doença física, podemos admitir o diagnóstico de ansiedade generalizada.

Respeitadas essas condições os sintomas que precisam estar presentes são:
1. Dificuldade para relaxar ou a sensação de que está a ponto de estourar, está no limite do nervosismo
2. Cansa-se com facilidade
3. Dificuldade de concentração e freqüentes esquecimentos
4. Irritabilidade
5. Tensão muscular
6. Dificuldade para adormecer ou sono insatisfatório
Por fim, um critério presente em todos transtornos é o prejuízo no funcionamento pessoal ou marcante sofrimento. Não podemos considerar os sintomas como suficientes para dar o diagnóstico caso o paciente não tenha seu desempenho pessoal, social e familiar afetados.


Os Sintomas
A preocupação com a possibilidade de vir a adoecer com algo grave ou sofrer um acidente embora não existam indicativos de que essas coisas possam vir a acontecer é o foco mais comum das preocupações das pessoas com ansiedade generalizada. Algumas pessoas temem mais que os entes queridos sofram algum desses males, como os pais, ou filhos.

Estes pacientes estão sempre imaginando situações como essas e freqüentemente se consideram incapazes de lidar com elas caso realmente venham a acontecer.

As variedades dos sintomas de ansiedade são enormes e muitas vezes pessoais. Ganho de peso, por exemplo, tanto pode não ter nenhuma relação com ansiedade como pode, para determinadas pessoas, ser a manifestação mais freqüente. Os sintomas mais comuns então são: boca seca, mãos ou pés úmidos, enjôos ou diarréia, aumento da freqüência urinária, sudorese excessiva, dificuldade de engolir ou sensação de um bolo na garganta, assustar-se com facilidade e de forma mais intensa, sintomas depressivos são comuns desde que não sejam mais exuberantes que os de ansiedade pois isso mudaria o diagnóstico.

O fato desses sintomas citados se parecerem com os sintomas do transtorno do pânico exigem um procedimento para distinção deste porque no pânico, o surgimento de agorafobia é mais comum e requer a indicação de terapia. Na ansiedade generalizada não há crises mas estados permanentes e prolongados de desconforto ansioso. Os pacientes com pânico podem experimentar estados de ansiedade prolongada entre uma crise e outra mas as crises de pânico diferenciam um transtorno do outro.

 

Modos de encarar o tempo

Nosso jeitão (ou jeitinho) de se relacionar com os outros.

A origem da capacidade humana de se relacionar, remonta aos primórdios da vida. Nossos pais ou figuras parentais, são os sustentáculos de onde se estrutura a nossa própria identidade e se constitui a nossa a autoestima. Aspectos que serão fundamentais para a forma com que nos relacionamos com o mundo e com os outros.

É sabido que ao nascermos recebemos uma herança, que vai sendo entregue durante nossa criação por nossos pais e familiares, Alfredo Moffatt escreve: “os pais entregam um primeiro molde”, do qual os indivíduos, ainda crianças partem em direção ao mundo e aos outros seres humanos.

O primeiro molde, ou o script como chamado por Eric Berne, são projetados pelos pais sobre a criança antes mesmo de concebê-las. E nessa história pessoal, a herança de  que falamos inicialmente se apresenta como um “pacote geracional” advindo da história familiar, de suas crenças, valores e modos de viver e se relacionar, que passa dos avós para os pais e destes para os filhos, por isso é necessário rever essa herança e decidir que parte desse “pacote geracional” levamos conosco e que parte deixaremos de carregar em nossas costas.

Marcos Marinho

Adolescência vai até os 25 anos? Especialistas divergem

Do Ig

“A ideia de que de repente aos 18 anos você é adulto não parece real”, afirma especialista
Psicólogos britânicos especializados no tratamento de jovens estão sendo orientados a considerar que hoje a adolescência vai até os 25 anos. “Estamos nos tornando mais conscientes e valorizando o desenvolvimento que vai além (de 18 anos) e eu acho que é uma boa iniciativa”, diz a psicóloga infantil Laverne Antrobus, da Clínica Tavistock de Londres.

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“A ideia de que de repente aos 18 anos você é adulto não parece real,” diz Antrobus. “Na minha experiência com jovens eu percebi que mesmo depois dos 18 anos eles ainda precisam de muito apoio e ajuda”.

Psicólogos infantis estão trabalhando com uma nova faixa etária, que vai de 0 a 25 anos, e não mais de 0 a 18 anos.

Desenvolvimento contínuo

A ideia por trás da nova orientação é ajudar a garantir que, ao completar 18 anos, os jovens possam usufruir do mesmo amparo e tratamento que vinham tendo dos sistemas públicos de saúde e educação.

A mudança acompanha os desenvolvimentos em relação à nossa compreensão sobre maturidade emocional, desenvolvimento hormonal e atividades específicas do cérebro.

“A neurociência tem feito esses enormes avanços que mostram que o desenvolvimento não para em uma determinada idade, e que há evidência de evolução do cérebro além dos vinte e poucos anos e que, na verdade, essa pausa no desenvolvimento acontece muito mais tarde do que pensávamos”, diz Antrobus.

Existem três fases da adolescência: a adolescência inicial, que vai dos 12 aos 14 anos; a adolescência intermediária, dos 15 aos 17 anos; e adolescência final, dos 18 anos para cima.

A neurociência tem mostrado que o desenvolvimento cognitivo de um jovem segue adiante neste último estágio, e que sua maturidade emocional, autoimagem e julgamento serão afetados até o córtex pré-frontal do cérebro se desenvolver totalmente.

Juntamente com o desenvolvimento do cérebro, a atividade hormonal também continua até os vinte e poucos anos, diz Antrobus.
“Eu encontro crianças e jovens entre 16 e 18 anos com uma atividade hormonal tão grande que é impossível imaginar que esta vá se estabelecer no momento em que completarem 18 anos”, diz Antrobus.

Ela diz que alguns adolescentes podem querer ficar mais tempo com suas famílias porque eles precisam de mais apoio durante esses anos de formação, e que é importante que os pais percebam que nem todos os jovens se desenvolvem no mesmo ritmo.

Jovens infantilizados

Mas há algum indício de que poderíamos estar criando uma nação de jovens que relutam em deixar a adolescência para trás? Programas de televisão estão repletos desses estereótipos de jovens adultos que não querem assumir as responsabilidades da vida adulta. E há aqueles personagens que querem romper com seus pais ou responsáveis autoritários e superprotetores e virar adultos, mas têm dificuldade em cortar os laços familiares.

Frank Furedi, professor de sociologia na Universidade de Kent, diz que temos jovens infantilizados e que isso levou a um número crescente de homens e mulheres que aos vinte e poucos anos ainda vivem em casa. “Questões econômicas são normalmente usadas como desculpa, mas na verdade não é esse o real motivo”, disse Furedi. “Há uma perda da aspiração por independência e um medo de viver sozinho. Na época em que fui para a faculdade, ser visto com os pais significava uma morte social, enquanto que hoje é uma norma.”

“Então temos hoje esse tipo de mudança cultural que significa, basicamente, que a adolescência se estende em seus vinte e tantos anos, e que isso pode prejudicar você de várias maneiras. Eu acho que o que a psicologia faz é, inadvertidamente, reforçar esse tipo de passividade, impotência e imaturidade e normaliza essa situação”.

A série de TV americana ‘Girls’ fala sobre as dificuldades do início da vida adulta. Furedi diz que essa cultura infantilizada intensificou a sensação de “dependência passiva” que pode dificultar as relações adultas.

“Há um crescente número de adultos que estão assistindo filmes infantis no cinema,” disse Furedi. “Se analisarmos os canais infantis de televisão nos Estados Unidos, veremos que 25% da audiência são adultos, e não crianças.”

Ele não concorda que o mundo moderno seja mais difícil para os jovens viverem.

“Eu não acho que o mundo tenha se tornado mais cruel, mas a questão é que temos protegido demais as nossas crianças desde cedo. Quando elas têm 11, 12, 13 anos, não as deixamos sair sozinhos. Quando elas têm 14, 15 anos, nos metemos tanto na vida deles que os privamos de uma experiência de vida real. Tratamos estudantes de universidade da mesma maneira que tratávamos alunos de escola, e é esse tipo de efeito cumulativo de infantilização que eu acho ser o responsável por isso.”

Rito tradicional

Mas será que os pais devem realmente incentivar mais os adolescentes a traçar o seu próprio caminho no mundo?
A série de televisão Girls — em que a personagem central Hannah Horvath luta com a vida adulta — capturou o zeitgeist (espírito da época). Os pais de Hannah não a ajudam mais financeiramente e ela tem que morar sozinha e cometer seus próprios erros.

Um dos ritos tradicionais de passagem para a vida adulta foi sempre sair de casa, mas a apresentadora de televisão, especialista em propriedades, Sarah Beeny, diz que os adolescentes não precisam sair da casa dos pais a fim de aprender a ser independentes, e que há enormes vantagens quando gerações diferentes vivem juntas.

“A solução para não se ter jovens inúteis de 25, 30 anos de idade vivendo com os pais não é colocá-los para fora da casa, e sim fazê-los lavar sua própria roupa, cuidar de seus gastos, pagar as contas, assumir a responsabilidade pela limpeza de seu quarto e não deixar que eles se acostumem é ter tudo feito para eles”, diz Beeny.

Ela diz que os pais devem desempenhar um papel no ensino de responsabilidades-chaves, e que os jovens, em troca, podem manter seus pais atualizados.

“Eu sei que soa como um sonho utópico, mas é provavelmente o que deveríamos estar buscando. Para mim, esse é o Santo Graal … nem todo mundo que vive sozinho, em sua própria casa, está pensando: brilhante, eu estou pagando uma hipoteca.”
Com tamanha atividade hormonal, e com a adolescência durando mais tempo do que se pensava, como saberemos quando realmente atingimos a idade adulta?

Para Antrobus, é quando a independência “parece algo que você deseja muito e pode adquirir”. Mas para aqueles adolescentes eternos entre nós, talvez a definição de Beeny seja mais apropriada. “Para mim, a vida adulta é perceber que não há adultos e que todo mundo está sendo levado pela vida”, diz Beeny.