Psiquismo e Subjetividade

Quem sou eu?

Em busca da sua história pessoal

Matéria sobre livro de Dulce Critelli em Diário de Saúde

capim

Distraídas da vida

 “Quem sou eu? Qual o sentido da existência? Que papel eu desempenho nela?” Premidas pelas urgências da vida prática, ou fascinadas pelas distrações que o mundo oferece, as pessoas costumam colocar essas perguntas de lado em seu atarefado dia a dia. Simplesmente as descartam ou adiam, à espera de um “depois” que, muitas vezes, nunca chega.

Foram, no entanto, perguntas desse tipo que impulsionaram a filosofia desde antes dos gregos. E, diante de uma grande crise ou de uma imprevista guinada na trajetória existencial, são elas que irrompem na tela da consciência, cobrando a atenção que merecem.

Historiobiografia

Essas perguntas estão no centro das preocupações da professora Dulce Critelli, do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, que acaba de lançar um livro sobre o assunto.

Com poucas páginas e leitura fluente, mas conteúdo denso e longamente elaborado, o livro História pessoal e sentido da vida apresenta o fundamento filosófico do método terapêutico-educativo desenvolvido pela autora, que ela chama de “historiobiografia”.

A professora Dulce emprega esse método tanto em sessões individuais de aconselhamento como em reuniões de grupo nas quais os participantes são direcionados e instrumentalizados para refletir sobre suas autobiografias e compreendê-las.

Questões filosóficas

“Descobri que muitos de nossos problemas decorrem menos de fatores psicológicos do que filosóficos. Não são os traumas, mas uma incompreensão do sentido da vida que os originam”, afirmou.

“Nessa perspectiva, a filosofia pode ser uma ferramenta fundamental. Quando pensamos, transformamos nossas crenças e, consequentemente, nosso modo de viver. A filosofia não é clínica, mas possui uma inequívoca força terapêutica, que reside naquilo que propriamente a caracteriza: sua estrutura reflexiva.

“Toda reflexão é um exercício de entendimento que retira os eventos de seu ocultamento (que vai do mero desconhecimento às interpretações corriqueiras) e os lança à luz”, disse.

Filosofia da existência

Essa estrutura reflexiva é o traço comum de toda atividade filosófica.

Mas a autora se pauta por uma escola filosófica específica, a da chamada “filosofia da existência”, desenvolvida por Martin Heidegger (1889-1976) e Hannah Arendt (1906-1975).  O livro de Dulce é fortemente calcado no pensamento de Heidegger e, mais ainda, no de Arendt, profusamente citado ao longo do texto.

Segundo Arendt, os eventos da vida precisam ser arranjados em uma história para podermos lidar com eles. Como a pensadora muitas vezes afirmou, citando uma frase da escritora dinamarquesa Karen Blixen (que escreveu sob o pseudônimo de Isak Dinesen): “Todas as mágoas são suportáveis quando fazemos delas uma história ou contamos uma história a seu respeito”.

É essa ideia que fundamenta a “historiobiografia” e constitui o tema central da história pessoal e do sentido da vida.

“Nossa existência pessoal não é um conjunto desconexo de eventos. Seu sentido se articula nas histórias que, consciente ou inconscientemente, contamos para nós mesmos. E, quando percebemos o fio de nossa existência, tornamo-nos muito mais disponíveis para fazer transformações. Descobrindo o padrão, descobrimos também o potencial de ação”, falou.

A linguagem que molda o mundo

Segundo Dulce, o padrão existencial se apoia em frases que as pessoas ouvem de outras ou que, acriticamente, dizem para si mesmas. Ela chama essas frases de “relatos”.

São afirmações curtas e fragmentadas, muitas vezes aprendidas na infância, e repetidas ao longo da vida. Perpetuando-se pela repetição, perpetuam também, como se fosse fatalidade, um determinado modo de ser.

Frequentemente os indivíduos se sentem prisioneiros desses padrões que eles mesmos ajudaram a criar. Quando trazem tais “relatos” para a luz da consciência e os submetem ao crivo da reflexão crítica, começam a se libertar de seu poder paralisante. E colocam ou recolocam suas vidas em movimento.

“Temos a ilusão de que moramos em um mundo significativo em si e por si mesmo. Mas, em si mesmo, o mundo é pura coisa. É nossa linguagem que o transforma em um mundo. Habitar o mundo é habitar a linguagem”, sublinhou Dulce.

Trata-se, então, de substituir os relatos acríticos e fragmentários que povoam a linguagem vulgar por uma história pessoal construída a partir da reflexão. A expectativa é que, ao se apoderar dessa história, o indivíduo simultaneamente se empodere. E deixe de ser vítima de uma imaginária fatalidade para se tornar senhor de si mesmo.

O livro História pessoal e sentido da vida, de Dulce Critelli, foi publicado pela Editora da PUC-SP. Mais informações podem ser obtidas no endereço http://www.pucsp.br/educ.

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A alma como realidade psíquica na fenomenologia
Os fenômenos e a consciência humana estão sempre correlacionados

Tommy Akira Goto

O estudo da alma sempre esteve presente nas discussões de muitas escolas filosóficas e psicológicas no Ocidente,produzindo concepções unívocas e diversas. Em meados do século 19, o termo “alma” foi perdendo consistência e relevância nas discussões. Os motivos foram a valorização do conhecimento natural/material frente ao espiritual-humano, devido à prosperity das ciências positivistas e aos crescentes descréditos à filosofia como “ciência”. No entanto, mesmo nesse ambiente cético e positivista, o estudo da alma foi revisitado e revigorado pela filosofia fenomenológica de Edmund Husserl (1859-1938) e de muitos seguidores, como Edith Stein, Max Scheler, Hedwig Conrad-Martius, entre outros.

O filósofo e matemático Edmund Husserl passou sua vida filosófica tendo como centro de suas preocupações o esforço por encontrar uma fundamentação radical para a filosofia, a construção de uma ciência universal para a subjetividade e um saber definitivamente válido acerca das coisas, em uma época em que somente o positivismo e a ciência tinham credibilidade epistemológica. Frente a essas questões é que Husserl, a partir da obra Investigações Lógicas (1900-1901), chegou à então chamada fenomenologia. Uma filosofia que consiste, em termos gerais, em um estudo rigoroso e descritivo dos fenômenos, uma autêntica“ciência dos fenômenos”. Isso porque, para o filósofo, não é das filosofias e da ciência que deve partir o impulso da investigação,mas sim dos problemas e das próprias coisas.

Mas o que são os fenômenos? Fenômeno (fa???µe???/phainomenon) para Husserl é tudo aquilo que aparece, ou seja, todas as coisas (Sache) que se mostram a nós, porém assinalando que “coisas” não devem ser entendidas apenas como coisas físicas (Ding). Quando dizemos que algo se mostra ou aparece, temos já subentendido que aquilo que se mostra,mostra-se a alguém, a nós, seres humanos. Esse é um ponto importante da fenomenologia: a ideia de que fenômenos e consciência humana estão sempre correlacionados.

Essa ideia partiu do “conceito de intencionalidade” que postula que toda consciência é sempre “consciência de algo”,ou seja, que todo pensar é sempre “pensar em algo”, todo sentir é “sentir algo”, e assim por diante. A intencionalidade foi uma descoberta de Franz Brentano (filósofo e psicologista, 1838-1917) – mestre e amigo de Husserl –, sendo por ele considerada como o modo de ser do psiquismo. Husserl manteve a ideia geral de intencionalidade, porém, diferentemente de Brentano,ampliou-a com a fenomenologia. Mostrou que a consciência intencional, em verdade, é constituída por uma multiplicidade de atos intencionais e que cada modo de consciência tem seus objetos (fenômenos)e vice-versa, indo para além da atribuição psicologista de Brentano.
A exposição da fenomenologia, do método fenomenológico e da análise da consciência apareceu definitivamente na obra Ideias para uma Fenomenologia Pura e uma Filosofia Fenomenológica (Ideias I),publicada em 1913. Nela, Husserl apresenta uma introdução à fenomenologia e ao método fenomenológico – exposto pelo“voltar às coisas mesmas”, no sentido de dirigir nossa atenção diretamente aos fenômenos – e, a partir daí, passa a desenvolvera filosofia fenomenológica. Esse caminho conduziu o filósofo à análise da realidade em seu conjunto, a realidade entendida na totalidade como natureza,como anímica e espiritual.
Tomado por essa tarefa, aparece então o Tomo II das Ideias, em que apresenta a análise da consciência e do mundo na esfera da realidade em conjunto, porém evidenciando descritivamente três regiões: a “coisa” (corpo), a “alma” e o “espírito”. Essas regiões não são entidades estanques,mas estruturas da pessoa que a constituem como um ser corpóreo, psíquico (anímico) e espiritual. A análise fenomenológica das regiões efetuada pela descrição da consciência em camadas de sentido entre a natureza e o espírito marcará o afastamento da fenomenologia da tradição filosófico-metafísica. Paul Ricoeur (2009), filósofo francês, comenta que “sem ela [fenomenologia], o cientista não sabe o que diz quando constrói o animal sobre o mineral, localiza o psíquico, engloba acultura na natureza ou reciprocamente.Quando não constitui essa realidade ‘na consciência’, o cientista é condenado ou a reduzir todas as ciências a uma só (por exemplo, a física matemática) ou a dissociá-las em função de metodologia heterogêneas” (p. 91).

No entanto, o tema da alma será posto em análise em Ideias II, pois é aí que o filósofo conceberá a alma e sua constituição. A alma, segundo Husserl, não deve ser entendida a partir dos princípio­­s metafísicos tradicionais (pneuma ou res cogitans), já pressuposto nas filosofias. A alma é uma estrutura psíquica real ou a própria psique. Husserl iguala a alma (Seele) ao sujeito psíquico (Psychè), mesmo advertindo a necessidade de diferenciá-las.

Assim, a alma será compreendida como um sujeito anímico real, um “ser psíquico idêntico, que vinculado de forma real com o respectivo corpo humano ou animal, compõe um ser duplo, uma substância real homem ou animal” (Husserl, 2005, p. 159). Ora, a alma aqui é descrita como uma realidade psíquica ambígua, ou seja, uma estrutura psíquica de dupla constituição: de um lado ela produz um movimento de exteriorização objetiva do eu, na qual se faz coisa, se realiza algo, por exemplo, quando sentimos, desejamos algo; e, do outro lado, ela produz um movimento de interiorização, animando o corpo, ou seja, recebendo novas camadas de significação para este sentir, desejar.

Apesar de manter uma correlação com o corpo físico – lembremos da correlação – a alma não tem a mesma realidade das coisas físicas, isto é, não possui a mesma natureza. Por isso Husserl mantém a palavra “alma” para explicitar tudo aquilo que não é corpo. Do mesmo modo, se as coisas físicas são caracterizadas pela permanência frente às circunstâncias variáveis, a realidade anímica/psíquica, ao contrário, por meio de suas propriedades psíquicas, manifesta-se em estados psíquicos face às circunstâncias variáveis constituindo-se, assim, em vivências psíquicas. Por exemplo, quando ouvimos um barulho (circunstância variável), sentimos imediatamente uma reação (estado psíquico). Essa reação pode variar de um simples incômodo a um medo terrível, dependendo das propriedades psíquicas ativadas e das circunstâncias em questão.

Husserl destaca que, diferentemente do “esquema” (físico-orgânico) presente nas coisas físicas, no sujeito psíquico há um substrato de propriedades, propriedades psíquicas ou “unidades de manifestação” que animam o corpo, constituindo-o como corpóreo. Para o filósofo, “a alma não tem ‘em si’ como a natureza, nem uma natureza matemática como a coisa física, visto não ter unidade esquematizada” (p. 166). Isto significa que o ser psíquico não possui esquemas e determinações, mas sim estados psíquicos que fluem (estar-em-fluxo temporal) – que estão sempre referenciados às vivencias da consciência real (empírica) – expressando-se, assim, nas múltiplas experiências psicológicas: estar sendo afetado, sentindo, desejando, pensando e etc. “A alma é portadora de uma vida anímica, subjetiva e, como tal, é uma unidade que se prolonga através do tempo” (Husserl, 2005, p. 165). A alma não é esquematizada, nem estável e permanente como as coisas físicas, ao contrário, sofre mudanças, flui.

Mesmo assim, Husserl adverte que as mudanças anímicas não são reguladas por leis causais, como sempre postulou a Psicologia ao atribuir a ideia de causalidade ao psiquismo. Mesmo a alma estando em “dependência de circunstâncias”, não é regulada pelo determinismo, ao contrário, ela vai constituindo-se, no fluir temporal, frente às várias espécies de dependência, desde o grau mais baixo até o mais superior, ou seja, do “psicofísico” ao “idiopsíquico”. No grau psicofísico (impulso psíquico) a alma se constituirá a partir das “circunstâncias corporais” (sensações, afetos e instintos), sendo não queridos ou controlados. Por exemplo, há necessidade de líquido (organismo), imediatamente “sinto sede” (psíquico), assim tenho a vivência da sede. Já no grau idiopsíquico, a alma estabelecerá uma dependência com ela mesma, ou seja, ela se motivará a partir de si-mesma e de seus significados (intelecções, volições, afetividades mais complexas). Por exemplo, sinto sede e decido dar a água a uma criança por quem sinto afeto.

Vimos então que os estados psíquicos são caracterizados, originariamente, por serem reativos, espontâneos e não controláveis. O medo, por exemplo, pertence à dimensão psicofísica que se manifesta reativa e espontaneamente em uma determinada experiência. Podemos ter medo ou não, mas isso vai depender da esfera de vivências que nos encontramos no momento. É evidente que, ao ter medo, estamos em uma relação direta com corpo, mas é somente pela alma/psíquico que sentimos ou nos “damos conta” do medo. Somos afetados por aquilo que se passa no corpo, afinal é a alma que anima (reage, sente) no corpo.

A alma, mesmo sendo reativa, como analisado, se mantém em referência às vivências, podendo, assim, ser ou não reconhecida pelo nosso “eu”. Quando os estados psíquicos são conscientes, ou seja, reconhecidos pelo eu, eles se constituem como atos psíquicos, sendo vivências psíquicas. Dessa maneira, passamos a ter consciência do que estamos vivendo psiquicamente, registrando e interferindo no que se passa em nossas vivências. Vivo uma afeição intensa (estado psíquico) por uma pessoa, a ponto de identificar que gosto dela, ou seja, sei que sinto um sentimento por ela. Diante disso temos atos afetivos (estou consciente) com alguém, atos constituidores de uma relação amorosa.

Em vários textos, Husserl mostrou que o estudo da alma – ou seja, das vivências psíquicas – é fundamental para a fenomenologia e para a psicologia, de modos distintos e com intenções diversas. Entretanto, o fenomenólogo salienta que esse estudo só cabe a uma “outra” psicologia, a Psicologia Fenomenológica, porque só ela conseguirá esclarecer as estruturas vividas da vida psíquica e os modos da consciência psíquica, tais como são por si mesmas. Lembra-nos, ainda, que as psicologias reinantes nunca alcançaram aquilo que é mais próprio da subjetividade psíquica, justamente por se manterem ingênuas no paradigma do físico e do organismo. “Mostra-se-nos, assim, de uma nova maneira, a diferença profunda, abissal, entre a matemática, entre qualquer ciência a priori do mundo e a fenomenologia como psicologia a priori, ou seja, como doutrina da essência da subjetividade transcendental”, conclui Husserl (2012, p. 213).

Tommy Akira Goto é professor de psicologia da Universidade Federal de Uberlândia

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