PSICOTERAPIA

Pretendemos aqui apresentar uma proposta de realização da clínica psicológica com a utilização de elementos que escapem das determinações das ciências naturais, tanto com relação às postulações teóricas acerca do psiquismo quanto das práticas que objetivam abrir um acesso às verdades desse psiquismo.

geografiasPara construir nossa proposta, aproximar-nos-emos da fenomenologia hermenêutica a fim de, então, alcançar elementos que nos permitam pensar as bases de uma clínica psicológica que parta da ideia de Dasein tal como desenvolvida por Heidegger (1988) e já iniciada pelos psiquiatras L. Binswanger e Medard Boss.

Segue ainda que…

“…podemos entender o equívoco de alguns nivelamentos correntemente efetuados com a noção de “existência”. O mais comum, talvez derivado de uma má compreensão do existencialismo francês, consiste na mera inversão da 3 tradição metafísica “essencialista”. Pensa-se que a valorização da existência concreta, factual, encarnada, é apenas uma subordinação do “espiritual” ao “material”, do “eterno” ao “histórico”, mas subsiste um resíduo de “simplesmente dado” neste pólo oposto às essências que seria a “existência concreta”.

temposNa verdade, a condição de “estar-lançada” da existência, sua facticidade temporal, incluída aí toda a corporeidade, jamais se confunde com um contexto simplesmente dado, no qual se encontra um sujeito livre apenas para interpretar ao seu modo essas condições dadas. A facticidade é já um “existencial”, não há condições factuais para uma pedra ou um animal, pois para eles não há mundo enquanto abertura de sentido. Só há “fatos” quando há sentido.

Da mesma forma, a historicidade da existência não pode significar o estar meramente “no tempo”, sendo determinada por eventos temporais. A objetivação do tempo e da história como uma “moldura” na qual a existência sempre se encontra, já é fruto de uma distração da atenção fenomenológica, que faz com que retornemos a uma compreensão natural da existência como algo dado dentro de um mundo. Assim como a existência é ser-no-mundo e não algo dentro do mundo, a temporalidade existencial jamais significa ser dentro do tempo.

Se “existir” é ser no modo dessa abertura de sentido em que já sempre nos vêm ao encontro os entes, existir é temporalizar e espacializar. Outro nivelamento comum é aquele que toma a noção de ser-no-mundo como uma simples valorização do caráter relacional, holístico, da condição humana, mas fazendo subsistir ainda um mundo simplesmente dado no interior do qual o homem se encontra sempre em uma rede de relações constitutivas de sua existência. Para esse tipo de interpretação, nomear o homem como ser-no-mundo seria análogo à afirmação de que ele é essencialmente um ser social, intersubjetivamente constituído.

Por mais dinâmica e complexa que seja a representação feita desse modo de subjetividade holisticamente produzida, trata-se ainda de uma objetivação que não traduz a experiência radical do nosso “si-mesmo” como mero “poder-ser”, abertura originária de sentido; condição ontológica, não objetivável, de qualquer objetivação. Não queremos, com essas observações, impugnar ou desvalorizar as influências que a noção heideggeriana de “existência” exerceu sobre diversas áreas e correntes da psicologia, apenas ressaltar que, dissociada de uma atitude fenomenológica, tal noção perde seu sentido ontológico próprio.

2006062000_compassion-tmCom relação às práticas psicológicas, as conseqüências desta concepção do ser do homem como “existência” demarcam uma atitude clínica nitidamente diferenciada, que poderíamos, resumidamente, sistematizar em três aspectos estreitamente articulados entre si: o abandono de qualquer redução do humano a dimensões meramente orgânicas, psicológicas ou sociais, naturalmente compreendidas, isto é, o abandono de qualquer cientificismo objetivante 4 do sofrimento existencial; a suspensão de toda postura técnica e voluntarista, em que o terapeuta se coloca no lugar daquele que conduz a dinâmica do processo clínico a partir de suas representações teórico-conceituais sobre a existência do paciente ou a partir de seu desejo pessoal de curá-lo; o exercício da atenção e do cuidado livre de expectativas, em que o outro é convidado a uma lembrança de si como pura “existência” para, a partir daí, perspectivar seus limites e suas possibilidades mais próprias e singulares.

Pensamos que a maior dificuldade em conceber deste modo a atitude clínica é a de não fazê-la recair em uma nova “técnica” que venha a se opor e a substituir as outras. Assim como a “atitude fenomenológica” não substitui a “atitude natural”, no sentido de negar a experiência através dela realizada, mas apenas suspende sua pretensão de “verdade natural” para permanecer no plano do sentido, também uma postura clínica fenomenológica não deve pretender excluir os comportamentos terapêuticos “naturais” de cuidado substitutivo, isto é, as prescrições técnicas e os conselhos pessoais, e, sim, retirar destes comportamentos seu caráter de fundamento da clínica, subordinando-os a uma atenção que busca sustentar a lembrança da dinâmica de realização da relação terapêutica enquanto possibilidade ôntica da nossa condição ontológica de ser-no-mundo-com-o-outro.

Embora, o essencial da fenomenologia, enquanto região institucionalizada do saber filosófico ou psicológico, conduza para possibilidades da experiência humana cujas ressonâncias nos chegam a partir das origens imemoriais das tradições filosóficas e sapienciais do pensamento, sua atualidade para a Psicologia e, particularmente, para o campo da clínica, em sentido ampliado, não poderia ser maior.

Constata-se no heterogêneo campo das Psicologias, na contemporaneidade pós-moderna, paralelamente à revitalização dos projetos cientificistas biologizantes e fisicalistas, uma tendência crítica que tende a deslocar a questão metafísica sobre “o que é” o homem, qual a sua qüididade, o seu ser em-si, para a questão sobre o sentido do seu ser, ou seja, uma questão hermenêutica.Índice

Com essa migração do plano metafísico para o de uma hermenêutica que se sabe irremediavelmente histórica, a Psicologia se define menos a partir de formulações técnico-científicas e se afirma como região transdisciplinar de construção de saber, envolvendo as dimensões ontológicas, estéticas, éticas e políticas da existência humana enquanto abertura espaço-temporal de mundo.

O problema das crises e conflitos gerados pelas experiências das diferenças e alteridades, bem como sua negação na contemporaneidade, está no centro dessas preocupações críticas e transformações dos saberes e das práticas psicológicas. Cada vez mais, são tematizadas as tensões entre as estratégias de regulação e de emancipação sociais em jogo desde 5 as origens do projeto histórico da época moderna, seus acirramentos e metamorfoses em curso com a hegemonia da lógica capitalística no mundo contemporâneo.

Nesse horizonte de transformações da Psicologia atual, a fenomenologia traz contribuições fundamentais, já desde as preocupações de Husserl com “a crise da humanidade européia”, passando pelas meditações do chamado segundo Heidegger sobre a técnica moderna, até as diversas análises políticas de inspiração fenomenológica de Sartre a Hanna Arendt.

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Sobressai para nós, nessa vocação da fenomenologia para a análise crítica do contemporâneo, a aposta de que somente através de uma consciência cada vez mais clara do papel de regulação e dominação exercido pelas institucionalizações técnico-científicas da vida cotidiana, é possível que as práticas psicológicas venham a se constituir em espaços de abertura e cuidado para possibilidades históricas de ser-no-mundo-com-o-outro mais plurais e emancipatórias.”

(ROBERTO NOVAES DE SÁ Universidade Federal Fluminense)