No Consultório

Como a psicoterapia contribui para saber quem somos?

Por Marcos E. F. Marinho

Poucos momentos após nascermos nos são dados nome e sobrenome, e algumas expectativas sobre nosso futuro por nossos pais e familiares.

Na medida em que crescemos, passamos a dominar as ferramentas da linguagem e a capacidade de pensar e narrar tudo que é pensado, sentido e percebido, amplia-se de certo modo a nossa consciência de si mesmo, nossa capacidade de análise e julgamento sobre nossos comportamentos e dos outros.

Mas se hipoteticamente alguém lhe viesse de surpresa e lhe perguntasse, mas afinal, quem é você? Certamente a resposta poderia ser abrangente e elegante, mas certamente seria parcial e incompleta, afinal, somos vários eu´s e esses seriam melhor definidos se pensarmos em papéis e personagens que se relacionam com os outros e com o mundo.

Somos seres de relação e interação e nos mostramos de muitas formas, somos filhos, irmãos, pais, chefes, namorados e tantas outras personagens que de certa forma a imagem que me vem é de um caleidoscópio, que é visto parcialmente pelas outras pessoas durante a vida, jamais na sua totalidade.

Tentamos dar alguma coerência e sentido capaz de integrar esses diversos eu´s, uma identidade que nos constitua, crenças e valores e alguns marcadores identitários, mas em alguns momentos da vida, as bases dessa integração apresentam rachaduras, chamamos esses momentos de crises, que bem trabalhadas podem produzir saltos existenciais capazes de levar além de nós mesmos,

Nem sempre reconhecer essas crises é uma tarefa fácil, percebemos muitas vezes os sinais da crise, raramente seu núcleo, e esses sinais aparecem sob a forma de insatisfações generalizadas sobre a vida, crise conjugal, abusos de substâncias, desejos de mudanças de carreira, estranhamentos e vazios, levando a estados de depressão, angústia, além de transtornos de humor dentre tantos outros sinais.

Muitos elaboram essas crises com rupturas desorganizadas e parciais, fanatismo religioso,  crenças irracionais, comportamentos estereotipados, drogas e inúmeros mecanismos de alienação que apequenam o ser.

Nesses momentos a busca por ajuda profissional dos psicoterapeutas e psicólogos pode produzir resultados incríveis de descoberta interior e de abertura de novas possibilidades existenciais e ampliação da qualidade de vida.

Pela psicoterapia passa a ser possível a reintegração e atualização desses “eu`s” que nos constitui, sob novas bases, desfazendo-se de máscaras e personagens desatualizadas e pouco estruturantes, reconhecendo nossas limitações, nossos desejos e as formas como nos relacionamentos conosco mesmo, com os outros e com o mundo.

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Efeito de decifração

Diálogos“As pessoas costumam achar que quando alguém comete um lapso ou um ato falho, se dá conta de que é o seu inconsciente. Isso não é verdade. Mesmo quando a pessoa diz: “Ah, é meu inconsciente!”, para ela, o lapso é um mero engano, um erro, uma bobagem, não tem efeito nenhum em sua vida. Para alguém que está em análise, ao contrário, um lapso contém um saber que diz respeito a ela, acarretando um efeito de decifração: a pessoa considera que ali há um saber, não um saber que passa pelo Eu, mas que vem direto do inconsciente, o qual deve ser assumido por ela. Numa análise, a fala tem que acusar a divisão do sujeito, a falta, e não uma verdade objetiva. Lacan resgata a fala como veículo da divisão do sujeito.”

Diário de um analisando em Paris, p. 113.

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REFLEXÕES E FRAGMENTOS SOBRE A PRÁTICA CLINICA

O Real

casamento

“O Real é estar longe do amor
É nessa distância de corpos
na ausência que se aloja
entre o ser que ama e o ser amado
que o Real aparece como tal
em sua crua transcendência
estranha insignificância
incessante interrogação”

Diário de um analisando em Paris, p. 149

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Quando o sofrimento psíquico ameaça lhe engolir…

saudades

“A dor que chegara a ameaçar me engolir encontrara guarida em meus ossos. Meu sofrimento não era algo do qual eu teria de abrir mão; tornara-se parte daquilo que eu tinha a oferecer, parte do que eu sou.”

(Maria Housden)

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AQUILO QUE LHE FALTA

CIUMESNo quarto mais protegido de todos, o do consultório analítico, a posição do amor se torna ainda mais paradoxal.[…] O que pode estar em causa no fundo da relação analítica, entendo partir do extremo, do que é suposto pelo fato de que alguém se isole com um outro para lhe ensinar o quê? – aquilo que lhe falta”. (LACAN [1960-1961], 1992, p. 22-23).

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