Heidegger (Trechos)

SERENIDADE (1955 / 1959)

 Tradução do original alemão: JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS (*). _

Reunimo-nos em comemoração ao compositor CONRADIN KREUTZER – nosso conterrâneo –. Se desejamos homenagear um desses homens destinados à criação artística, em primeiro lugar deve-se honrar condignamente sua obra; em tal caso, ouçamos pois as suas composições.

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Neste instante soam canções e coros, música de ópera e de câmara extraídos da obra de Kreutzer; neles está o próprio artista – pois a presença do mestre na obra é a única autenticidade –; quanto maior é um mestre, mais ele desaparece inteiramente no interior da obra.

(Os músicos e os cantores que participam desta comemoração fornecem-nos a audição da obra de Kreutzer neste exato momento.)

Contudo, será isto o que faz deste festejo uma comemoração?

Para que ocorra comemoração é preciso que pensemos.

Mas o que dizer – e pensar – quando comemoramos um compositor?

Não se notabiliza a música pelo fato de “falar” através do banal ressoar das notas e de não precisar da linguagem comum  a das palavras?

Sim, dizem-no; no entanto, persiste a questão: – Será o celebrar, através da interpretação musical e do canto, já um comemorar, no qual se invoca o pensamento?

Parece-nos que não. Eis o porquê de os organizadores introduzirem no programa um “discurso comemorativo” cuja função é auxiliar-nos expressamente a pensar no homenageado e em sua obra. martin-heidegger-107-4

Esta memória torna-se viva quando voltamos a relatar a biografia de Kreutzer, enumerando e descrevendo suas obras; por meio de tal narrativa, somos informados de alegrias e tristezas, de aspectos edificantes e de atos exemplares; no entanto, no fundo, limitamo-nos a ser entretidos por um discurso; não nos é exigido pensar enquanto ouvimos o relato, ou seja, meditar sobre algo que – essencialmente – toca a cada um de nós de modo direto e perene; por isso, sequer um discurso comemorativo garante que, ao comemorar, pensemos.

Não nos enganemos: Todos, mesmo os que pensam por dever profissional, muitas vezes são pobresem-pensamento (com excessiva facilidade, ficamos sem-pensamento); o sem-pensamento é um hóspede estranho que, em nosso mundo, entra e sai por toda parte; pois hoje se toma “conhecimento de tudo” pelos meios “mais rápidos e econômicos” e, neste mesmo movimento, tudo se esquece; desta feita, os atos festivos sucedem-se uns aos outros; no entanto, as comemorações tornam-se cada vez mais pobres em-pensamento, associando-se, intimamente, ao sem-pensamento.

Todavia, mesmo quando nos posicionamos no sem-pensamento, não renunciamos ao pensar – temos inclusive uma necessidade incondicional dele (sem dúvida, de um modo especial), de tal maneira que, no sem-pensamento, nada colhemos do pensar –; entretanto, apenas pode ficar infértil o que contém em si um fundo onde algo possa brotar (por exemplo, um campo agrícola); de outra parte, uma auto-estrada – na qual nada brota – jamais se transforma em um lavradio; assim, da mesma forma que apenas podemos perder a audição pelo fato de ouvirmos e envelhecer por termos outrora sido jovens, apenas podemos nos tornar pobres em-pensamento (ou inclusive sem-pensamento) em função de os homens disporem – no fundo de sua essência – do pensar (“o espírito e a razão”) e por estarem destinados a pensar; com efeito, somente podemos perder (ou melhor, deixar de ter) aquilo que, “consciente ou inconscientemente”, possuímos.

De fato, o crescente sem-pensamento ressalta de um processo que destrói o âmago mais íntimo dos homens atuais: – Eles se encontram dis-pensando-se. Este dis-pensar-se é a causa do sem-pensamento; mas o dis-pensar-se provém do fato de os homens nada quererem saber de que eles se-dis-pensam – os homens atuais negarão mesmo, completamente, o dis-pensar-se (e afirmarão o seu contrário) –; eles dirão (e com pleno direito) que em época alguma se concretizaram planos tão avançados, se realizaram tantas pesquisas, se praticaram investigações de maneira tão apaixonada como ocorre atualmente; não o nego, tal dispêndio de esperteza e reflexão foi de extrema utilidade; logo, este pensamento será semprein-dis-pensável; mas cabe ressaltar que se trata de um pensamento de tipo singular.

LUTOS
A sua singularidade consiste no fato de que – quando se planeja, se investiga ou se organiza um empreendimento – conta-se sempre com condições pré-estabelecidas, as quais são consideradas em função do objetivo que se busca alcançar; antecipadamente, conta-se com determinados resultados; ora, este calcular caracteriza todo o pensamento planificador e investigador; mesmo que não recorra a números, nem à máquina-de-calcular, nem aos dispositivos para grandes cálculos, pois bem, tal pensamento continua a calcular-se. O pensamento que calcula não dis-pensa o calcular-se; e o faz calculando possibilidades continuadamente “novas”, sempre com “maiores perspectivas”, as quais seriam, simultaneamente, “mais rentáveis”. O pensamento que calcula vai de uma “oportunidade” à outra “oportunidade”; ele nunca para, nunca alcança o me-ditar-se, o re-fletir-se sobre a significação que rege tudo o que existe.

Portanto, há dois tipos de pensamento, ambos, à sua maneira, legítimos e necessários: aquele que se-calcula, dis-pensando-se; e aquele que se-medita, se-pensando.

É a este pensamento que se-medita ao qual me refiro quando digo que os homens atuais se-calculam, dis-pensando-se; contudo, objetar-se-á que o se-medita não percebe que sobrevoa a realidade, que perde laços com o solo, que não é útil para dar conta dos temas corriqueiros e que, enfim, em nada contribui para a efetivação da práxis.

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Finalmente, diz-se que o se-medita – o se-pensar persistente – é “elevado demais” para o entendimento comum; neste mal-entendido, o único ponto correto é que o pensamento que se-medita surge tão pouco espontaneamente quanto o pensamento que se-calcula; algumas vezes, ele exige um grande esforço, um labor demorado, necessitando de cuidados ainda mais delicados do que qualquer outro verdadeiro ofício; não obstante, assim como o lavrador, há ele de saber aguardar que a semente brote e amadureça.

Seja como for, qualquer um pode – à sua maneira e dentro de seus limites – seguir os caminhos do se-medita.

Por quê?

Porque os homens são os seres que se-pensam, que se-meditam.

Assim, absolutamente, não precisamos nos elevar às “regiões superiores” quando pensamos: basta nos demorarmos junto do que está perto e meditarmos sobre o que está mais próximo, sobre o que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora – aqui, neste pedaço de solo natal; agora, na presente hora universal .

Com efeito, o que nos indica esta celebração, caso estejamos dispostos a meditar?

No presente caso, percebemos que – do solo da Terra Natal – brotou uma obra de arte.

Se meditarmos sobre este simples fato, recordamo-nos imediatamente que o solo da Suábia produziu grandes poetas e pensadores no século anterior e no que o precedeu; se continuarmos neste raciocínio, observamos que a Alemanha Central possui um solo igualmente fértil, assim como a Prússia Oriental, a Silésia e a Boêmia.

Somos então conduzidos a meditar e indagamos: Não pertence o ápice de uma obra de arte ao seu enraizamento no solo da Terra Natal?

Certa vez JOHANN PETER HEBEL escreveu:

– Somos plantas que, quer nos agrade confessá-lo ou não, apoiadas nas raízes têm de romper o solo a fim de florescer no Éter e dar frutos.

O poeta quer dizer: Lá onde deve nascer uma obra humana, autenticamente feliz e benfazeja, os homens hão de soerguê-la dos fundamentos da Terra Natal, elevando-a em direção ao Éter (ao ar-livre das alturas do Céu, à esfera aberta do Espírito).

Somos então conduzidos a meditar e indagamos: Aquilo que Hebel diz ainda se aplica aos homens atuais? Há ainda este habitar tranquilo dos homens entre a Terra e o Céu? O Espírito-que-Medita ainda rege o País? Há ainda a Terra Natal, de fortes raízes no solo e na qual os homens se situam permanentemente, a saber, indispensavelmente?

Ora, expulsos de seu antigo solo, abandonando aldeias e vilarejos, muitos alemães perderam a Terra Natal; inúmeros outros, aos quais Ela foi poupada (embora a tenham esquecido), são capturados no turbilhão das grandes cidades, estabelecendo-se nas zonas industriais desertificadas e tornando-se alheios à primeva Terra Natal.

Contudo, e aqueles que Nela restaram?

Estes talvez estejam ainda mais desenraizados do que os que foram expulsos. Diuturnamente, são reféns do rádio e da televisão; por sua vez, o cinema os conduz semanalmente para paragens invulgares (com frequência, apenas vulgares) da representação que simula um mundo que não o é; aqui e ali, ocupam-se atentos do Illustrierte Zeitung; de fato, tudo aquilo com que os meios de comunicação contemporâneos de hora em hora excitam, surpreendem e estimulam a imaginação dos homens, tudo isso está mais próximo dele do que o próprio Campo em torno da gleba, do que o Céu sobre a Terra, do que o transcorrer das horas do Dia e da Noite, do que os usos e costumes da Aldeia, do que o legado do mundo da Terra Natal.

Somos então conduzidos a meditar e indagamos: O que ocorre aqui com os expulsos da Terra Natal, assim como com os que Nela permaneceram?

Certo, o enraizamento dos homens atuais está ameaçado em sua essência mais íntima.

E mais: O des-enraizamento não é provocado apenas por circunstâncias externas e fatalidades do destino, ou sequer é o efeito da negligência e do modo de vida superficial dos homens; o des-enraizamento advém do “espírito da época” no qual todos nós nascemos.

Somos então conduzidos a meditar e indagamos: No futuro os homens e suas obras poderão ainda brotar do solo da Terra Natal e crescer em direção ao Éter, a saber, em direção à amplidão do Céu e do Espírito? Ou tudo restará subsumido às garras do Planejamento e do Cálculo, da Organização e da Automatização?

Se no transcorrer desta celebração de hoje meditarmos sobre o que ela nos aponta, observamos que a nossa época é ameaçada pelo des-enraizamento.

E então perguntamos: O que realmente acontece no nosso tempo? O que caracteriza o nosso tempo?

Fábula-Mito sobre o Cuidado ou A Fábula de Higino
Recentemente, denominou-se a época que agora se inicia de “Era Atômica” e a sua característica mais preocupante seria a “bomba atômica”; contudo, isso seria meramente superficial, pois logo se admitiu que a energia atômica também pode ser utilizada para fins pacíficos; neste sentido, a Física Atômica e os seus técnicos estão por toda parte voltados para concretizar a utilização pacífica da energia atômica numa perspectiva de longo prazo; as grandes associações industriais dos países mais desenvolvidos (com a Inglaterra à frente) preveem que a energia atômica poderia se tornar um negócio gigantesco; assim, vislumbra-se no negócio atômico a nova felicidade e a Ciência se aproxima, anunciando publicamente esta felicidade: em Julho deste ano [1955] dezoito nobelizados declararam textualmente na Ilha de Mainau que “A Ciência (no caso, a Ciência Moderna da Natureza) é um caminho para uma vida mais feliz do homem”.

Esta afirmação, o que ela significa? Terá emergido de um meditar-se sobre o sentido da Era Atômica?

Caso restarmos satisfeitos com aquela assertiva da Ciência, pois bem, permaneceremos o mais distante possível de uma meditação sobre os tempos atuais e por quê?

Porque teríamos adentrado no esquecimento do meditar, porque não mais perguntaríamos: Qual a proveniência do fato de a Tecnologia ter podido inventar e acionar energias até então inéditas na Natureza?

Ora, isto se deve ao fato de ocorrer, há alguns séculos, uma mutação em todas as representações dominantes; assim, os homens são transpostos para outra realidade; esta subversão radical da visão de mundo é consumada na Filosofia Moderna, resultando-se uma posição inteiramente inédita dos homens no mundo e em relação ao mundo.

Doravante o mundo aparece como um objeto sobre o qual o pensamento que se-calcula investe, nada mais resistindo aos seus ataques; a Natureza transmuda-se em um fundo de reserva gigantesco, a título único de fonte de energia para a Técnica e a Indústria modernas (este relacionamento fundamentalmente tecnocientífico dos homens com o todo do mundo surgiu pela primeira vez no Século XVII, na Europa e unicamente nela; ele permaneceu desconhecido das outras regiões da Terra durante longo tempo, além de ser totalmente estranho às épocas anteriores e aos destinos de seus povos).

Dúvidas sobre Psicoterapia
O vigor inaparente da Tecnologia determina o relacionamento dos homens com o que quer que exista; ele predomina sobre toda a Terra a tal ponto que os homens já se direcionam para o espaço cósmico, para além da Terra…

Contudo, há apenas duas décadas tornaram-se conhecidos, com a energia atômica, mananciais energéticos enormes, de modo que qualquer demanda mundial de energia será rapidamente satisfeita; brevemente, a produção imediata de energias inéditas não mais estará restrita a determinados países e continentes (como ocorre com a energia propiciada pelo carvão, pelo petróleo e pela madeira), posto que centrais nucleares serão construídas por toda parte.

A questão decisiva da Ciência e da Tecnologia já não é indagar pela matriz através da qual obter-se-á esta ou aquela quantidade de energia, mas sim a de conquistar a maneira pela qual poder-se-á dominar e controlar as inacreditavelmente grandes energias atômicas e então garantir à Humanidade que tais energias não fujam subitamente à vigilância, não “tomem o freio nos dentes” e aniquilem tudo.

Logo, ao se obter a soberania sobre a energia atômica (e isto será conseguido) começará um desenvolvimento totalmente inédito do mundo técnico; as técnicas que hoje nos são familiares – a do cinema, a da televisão, a dos transportes (especialmente o aéreo), a da informação, a da medicina, a da alimentação, etc – provavelmente representam apenas um grosseiro estágio inicial; de fato, ninguém poderá antecipar as mutações tecnológicas que se aproximam; todavia, a evolução da técnica ocorrerá cada vez mais rapidamente e será impossível detê-la em qualquer parte; onde quer que existam, as forças dos dispositivos técnicos e dos autômatos apertarão cada vez mais o cerco; os poderes que sob a forma de quaisquer dispositivos e constructos técnicos demandam, prendem, arrastam e afligem os homens a todo o momento e lugar há muito que superaram a vontade e a capacidade de “decisão” dos homens, simplesmente porque os sobredeterminam.

Entretanto, pertence ao ineditismo do mundo tecnocientífico o fato de as suas realizações serem rápida e publicamente conhecidas e admiradas; assim, todos podem ler hoje em qualquer revista (sob hábil controle) ou ouvir no rádio o que este discurso enuncia sobre o mundo tecnocientífico; no entanto, uma coisa é ter ouvido ou lido algo (ter “tomado conhecimento”), outra é refletir sobre o que ouvimos e lemos.

Neste Verão de 1955, em Lindau, outra vez ocorreu o encontro internacional dos premiados pelo Nobel; em tal ocasião, o químico americano Stanley disse o seguinte: – “Proximamente, a vida será colocada em mãos dos químicos, os quais irão decompor, reconstituir e modificar a substância viva como bem entenderem”.

Ora, acolhemos tal declaração, admiramos inclusive a ousadia da investigação científica e não pensamos em mais nada.

Com efeito, não refletimos que aí se prepara com os meios tecnológicos uma agressão à vida e à natureza humana, em comparação com a qual a bomba de hidrogênio pouco significa; pois mesmo se as bombas de hidrogênio não explodirem e a vida humana perdurar sobre a Terra, com a dita Era Atômica inicia-se uma inquietante mutação do mundo.

Todavia, aquilo que é verdadeiramente inquietante não está no fato de o mundo se tornar cada vez mais “técnico”; tudo se deve à constatação de não estarmos preparados para tal mutação do mundo, posto que ainda não conseguimos, através do pensamento que se-medita, lidar corretamente com o que está realmente a emergir.

Indivíduo algum, ou grupo de homens, ou uma comissão (mesmo de estadistas), ou investigadores e técnicos (por mais importantes que sejam), ou conferência de grandes da economia e da indústria podem barrar ou dirigir o transcurso histórico da Era Atômica: meramente humana, organização alguma se encontra em posição de alcançar o domínio de nossa época.

Assim, indefesos e desamparados os homens da Era Atômica restariam entregues à suprapotência ilimitada da técnica: efetivamente, nada a obstaria se, quanto ao campo do jogo decisivo, os homens atuais renunciassem contrapor o pensamento que se-medita àquele que apenas calcula.

Mas, se o pensamento que se-medita despertar a reflexão há de trabalhar ininterruptamente e na menor oportunidade.

Portanto, também aqui e agora, e justamente durante esta cerimônia comemorativa, pois ela nos fornece o ensejo para refletir sobre algo que na Era Atômica está especialmente ameaçado: o enraizamento das obras humanas.

Assim, agora pergunto: Posto que o anterior enraizamento se perde, não se poderia restituir aos homens um novo solo, no qual a sua essência e obra pudessem brotar de maneira nova, mesmo na Era Atômica?

Qual seria o solo de um futuro enraizamento?

Talvez o buscado por esta indagação se encontre muito próximo, tão próximo que não o vemos; porque a via para o que está próximo é – para nós, homens – sempre a mais longa e, como tal, a mais difícil.

Ora, esta via é um caminho de pensamentoO pensamento que se-medita exige que não permaneçamos unilateralmente presos a uma representação, que não continuemos a correr em mão-única na direção de uma representação, pois o pensamento que se-medita exige que nos ocupemos com aquilo que, à primeira vista, parece inarticulável.

Todavia, experimentemos. Atualmente, para cada um de nós, os equipamentos, aparelhos e máquinas do mundo técnico são, em maior ou em menor grau, imprescindíveis; seria portanto insensatez investir cegamente contra o mundo técnico ou condená-lo como uma “obra do Demônio”; encontramo-nos dependentes dos objetos técnicos, os quais inclusive nos desafiam a um crescente aperfeiçoamento; no entanto, sem que o percebamos, estamos de tal modo “apegados” a eles que nos tornamos seus “escravos”.

Mas também podemos proceder de outro modo…

Podemos utilizar os objetos técnicos; contudo, ao utilizá-los normalmente, permanecer ao mesmo tempo livres deles, de tal sorte que possamos largá-los a qualquer momento.

Podemos utilizar os objetos técnicos seguindo as instruções para o seu uso; contudo, ao mesmo tempo, deixá-los entregues a si mesmos como algo que não diz respeito àquilo que em nós é singular e próprio.

Podemos dizer sim à utilização inevitável dos objetos técnicos; contudo, ao mesmo tempo, dizer não, impedindo que nos tomem e, assim, dobrem, iludam e finalmente neutralizem a nossa essência.

Entretanto, se ao mesmo tempo dissermos sim & não aos objetos técnicos a nossa relação com o mundo técnico não se tornará ambígua e não-decidida?

Muito ao contrário. A nossa relação com o mundo técnico torna-se especialmente simples e tranquila. Permitimos que os objetos técnicos entrem em nosso mundo cotidiano e ao mesmo tempo os deixamos de fora, os deixamos entregues a si mesmos como coisas não-absolutas e sim dependentes de algo superior.

Eu gostaria de designar esta posição do sim e do não simultâneos em relação ao mundo técnico com uma antiga expressão: – A SERENIDADE PARA COM AS COISAS [die Gelassenheit zu den Dingen].

Ora, nesta posição nada mais nos aparece apenas na perspectiva da técnica, pois despertamos e observamos que a fabricação e o uso do maquinário exigem de nós, na realidade, outro modo de relacionamento com as coisas, o qual, no entanto, não é sem-sentido; assim, por exemplo, a lavoura e a agricultura “transformam-se” em Indústria Alimentar; contudo, embora seja indubitável que aqui (como de resto em outros domínios) esteja a ocorrer uma mutação profunda na relação dos homens com a Natureza e o mundo, o sentido que rege esta mutação permanece oculto.

Portanto, reina em todos os procedimentos técnicos um sentido que demanda o fazer e o deixar-ser dos homens, um sentido do qual eles não são os senhores; sendo assim, não sabemos em que consiste o sentido do domínio crescente da técnica atômica, cada vez mais inquietante; de fato, o sentido do mundo técnico oculta-se; todavia, prestando-se agora atenção particular e constante que em todo o mundo técnico vigora um sentido oculto, então encontramo-nos imediatamente no círculo do que se oculta de nós, e se oculta precisamente ao se direcionar para nós.

Com efeito, o que se desvela e ao mesmo tempo se vela é a marca indelével daquilo a que chamamos O MISTÉRIO e denomino a posição em decorrência da qual nos mantemos abertos ao sentido oculto do mundo técnico de A ABERTURA AO MISTÉRIO [die Offenheit für das Geheimnis].

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A SERENIDADE PARA COM AS COISAS e A ABERTURA AO MISTÉRIO são indissociáveis; elas nos concedem a possibilidade de estarmos no mundo de uma maneira completamente diferente; prometem-nos um novo solo sobre o qual possamos nos manter e subsistir sem perigo no seio do mundo técnico.

A SERENIDADE PARA COM AS COISAS e A ABERTURA AO MISTÉRIO abrem-nos a perspectiva de um novo enraizamento, que talvez um dia poderá rememorar de uma nova forma o antigo enraizamento, o qual agora decai rapidamente.

Mas, não sabemos por quanto tempo, os homens encontram-se numa situação perigosa.

Por quê?

Ora, “apenas” porque inesperadamente poderá eclodir uma Terceira Guerra Mundial, a qual levaria ao total aniquilamento da Humanidade e à destruição da Terra?

Não. Pois outro perigo muito maior ameaça a Era Atômica que se inicia e precisamente no momento em que a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial está neutralizada (tal afirmação soará estranha apenas quando não meditarmos nela).

Assim, em que medida é válida a afirmação acima?

Ora, ela é válida na medida em que a mutação da técnica que está ocorrendo na Era Atômica poderia prender, seduzir, ofuscar e deslumbrar os homens de tal modo que, certa vez, o pensamento que calcula seria o único pensamento admitido e praticado.

Portanto, qual o grande perigo que se aproxima?

De uma parte, a máxima eficiência do planejamento e da invenção que calculam andaria a braços com a indiferença para com a reflexão, para com a total ausência de pensamentos; logo, de sua parte, os homens teriam renegado e rejeitado o que têm de mais próprio, qual seja, o fato de poderem ser meditantes; importa pois salvar essa essência dos homens, mantendo desperto o pensamento que se-medita.

Contudo, a SERENIDADE PARA COM AS COISAS e a ABERTURA AO MISTÉRIO nunca são gratuitas, posto que ambas brotam de um pensamento determinado e contínuo.

Talvez esta cerimônia comemorativa possa se constituir em um impulso neste sentido; ao correspondermos a este impulso, pensamos em CONRADIN KREUTZER, na origem de sua obra, nas forças das raízes, na Terra Natal de Heuberg; e somos nós quem assim pensamos, nós, os homens, os que têm que encontrar e preparar o caminho para e através de a Era Atômica.

Quando então a SERENIDADE PARA COM AS COISAS e a ABERTURA AO MISTÉRIO brotarem em nós, deveríamos alcançar um caminho que conduza a um novo solo; neste solo a criação de obras perenes poderia fincar novas raízes.

Em suma, de outro modo e em “outra era” seria novamente verdadeira a proposição de JOHANN PETER HEBEL:

– Somos plantas que, quer nos agrade confessá-lo ou não, apoiadas nas raízes, têm de romper o solo a fim de florescer no Éter e dar frutos.

FIM.

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“ONDE SE REVELA AINDA UM CAMINHO PARA A DIMENSÃO PRÓPRIA DO HOMEM?” (1963)

tradução do original alemão: JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS (*). _

 

martin-heidegger-89-6Prezado Colega Sr. KOJIMA:

Permita-me abordar sua carta, sobre a qual meditei bastante, através de três perguntas; talvez assim nos aproximemos da mais problemática questão do pensamento.

  1. A) QUE SIGNIFICA EUROPEIZAÇÃO DO MUNDO?

A europeização do mundo expressa algo que partiu da Europa e se expande irresistivelmente pelo planeta. Por “Europa” designamos o Ocidente-moderno. A Modernidade é o último período de sua história. Este período pode ser caracterizado sob múltiplas perspectivas se o considerarmos historicamente; entretanto, se quisermos tomar o elemento “europeu” sob o ponto de vista de seu domínio planetário, devemos indagar:

A.1) De onde procede esse domínio?

A.2) Do que ele retira seu estranho poder?

A.3) Qual o elemento que nele se apresenta como dominante?

Se atentarmos para a relação do Homem com a Natureza, seu aspecto mais evidente é a Técnica-moderna, em cujo rastro configurou-se a moderna sociedade industrial. A representação comum da Técnica interpreta-a como a aplicação da Física matemático-experimental à exploração e utilização das forças da Natureza. Na conformação desta ciência descobre-se o início da Modernidade-ocidental, a saber, do elemento “europeu”.

A.4) A partir de onde se determina a característica própria da moderna Ciência da Natureza?

A moderna Ciência da Natureza visa um saber que assegure a prévia calculabilidade dos eventos naturais; apenas o que pode ser previamente calculado vale como sendo; o Projeto Matemático da Natureza (que se realiza na Física-teórica) e o questionamento experimental da Natureza (que é próprio do Projeto), exigem, sob certos aspectos, contas dela; a Natureza é provocada, ou seja, chamada a mostrar-se como objetividade-calculável.

Se pensarmos a Técnica a partir do termo grego Téchne e de seu contexto, ela significa: Ter conhecimentos na produçãoTéchne designa uma modalidade de saber. E produzir quer dizer: Conduzir à manifestação, tornar acessível e disponível algo que anteriormente aí não estava como presente. Este produzir – vale dizer, o elemento próprio da Técnica – realiza-se de maneira singular, no Ocidente-europeu, através do desenvolvimento das modernas Ciências Matemáticas da Natureza; seu traço básico é o elemento técnico que pela primeira vez apareceu, em sua forma nova e própria, através da Física-moderna; pela Técnica-moderna é descortinada a energia oculta na Natureza: O que se abre é transformado e em seguida reforçado; o que se reforça é armazenado e em seguida distribuído; as maneiras pelas quais a energia da Natureza é assegurada são controladas, e o controle, por sua vez, também deve ser assegurado.

Por toda parte impera a convocação que provoca, assegura e calcula. Já estamos em tempos em que a produção de energias se estendeu até a elaboração de elementos e matérias que sequer ocorrem na própria Natureza. A este poder de Convocação-Produtora está subordinado também o caráter técnico da Ciência-moderna.

O poder da Convocação-Produtora deve ser experimentado como aquilo que por toda parte manifesta tudo o que pode ser e é, como disponibilidade [Be-stand] calculável e assegurável (apenas assim); com toda certeza, este poder não é nenhuma obra humana, o que faz com que as Ciências, a Indústria e a Economia sejam igualmente a ele subordinadas; isto significa que elas restam determinadas pela Convocação-Produtora nos seus diversos modos de produção; o inevitável e irreprimível deste poder força a expansão de seu domínio sobre todo o planeta; como seu elemento característico mostra-se o fato de que constantemente ultrapassa, no tempo e no espaço, qualquer grau de domínio.

O progresso dos conhecimentos científicos e das invenções pertence à própria lei da Convocação-Produtora; de modo algum se trata de uma meta previamente fixada pelo Homem; como consequência do domínio deste poder desaparecem (episodicamente ou para sempre?) as culturas nacionais que se desenvolveram através de um povo com sua paisagem típica e em seu lugar se constitui e se cultiva uma Civilização-planetária.

Sem dúvida, falar de uma europeização do mundo toca em algo certo; no entanto, permanece uma expressão superficial e de cunho histórico-geográfico enquanto não meditarmos sobre o elemento próprio do poder da Convocação-Produtora; isto exige que indaguemos se nosso pensamento e sua tradição estão capacitados para escutar o apelo deste poder e a dizer corretamente a Convocação-Produtora que nele vigora; também o pensamento ocidental-europeu, que foi pela primeira vez tocado e provocado por este poder, não é mais capaz, na forma que assumiu até hoje, de questionar tal poder a partir de sua dimensão constituinte.

Pelo exposto até aqui torna-se claro em que medida a elucidação das perguntas que seguem permanece necessariamente no âmbito hipotético.

  1. B) QUE DESIGNA SUA EXPRESSÃO “PERDA DA ESSÊNCIA HUMANA”?

A expressão “perda da essência humana” [Menschenlosigkeit] não é nem utilizável nem compreensível em língua alemã. De sua carta apreende-se com clareza em que sentido ocorrem seus pensamentos sobre o Homem na era da ilimitada tecnicização. O Homem está colocado sob a crescente ameaça de perder sua Humanidade, entendendo-se por isso aquilo que o caracteriza como sua dimensão própria. Seja no sentido ocidental seja no oriental, em ambos os casos pensa-se numa antiga e tradicional determinação do Humano que está em vias de ser extinta; por consequência, o Homem não pode ser mais o que era antes de sua dominação pelo poder da Convocação-Produtora.

Porém, maior do que o perigo desta perda insiste talvez uma outra, pois se interdita ao Homem vir a ser aquele que, até agora, propriamente, não pôde ser. Para notar este perigo é preciso indagar:

B.1) De que modo está o Homem exposto ao poder da Convocação-Produtora?

Sem percebê-lo o próprio Homem está convocado, ou seja, chamado a lidar racionalmente com o mundo no qual está inserido; em geral, é chamado a fazê-lo tratando-o [ao mundo] como disponibilidade [Be-stand] calculável, e, ao mesmo tempo, assegurando-se dele sob o ponto de vista das possibilidades da exploração racional; assim, o Homem permanece cativo da vontade de lidar com o que é calculável e de sua efetividade. Entregue ao poder da Convocação-Produtora, o Homem interdita a si mesmo o caminho para o elemento essencial de sua existência; sequer a ameaça exterior proveniente de uma catástrofe mundial no sentido da destruição física do Homem, sequer a ameaça interior que brota da transformação do Homem na subjetividade que se exalta voltando-se contra si mesma, constituem a ameaça decisiva para Humanidade do Homem, pois ambas já são apenas efeitos do destino que consiste no fato de o Homem, subsumido ao poder da Convocação-Produtora, exercer (como aquele que foi chamado por este poder para servi-lo) a guarda do mundo como disponibilidade [Be-stand], lançando-se, com isto, no vazio; em correspondência com tais coisas está o traiçoeiro tédio, que, aparentemente sem vínculo com nada e nunca assumido como tal, é acobertado pelo movimento da informação, pela indústria da diversão e do turismo, mas de modo algum é eliminado; o fato de a dimensão própria do Homem ser-lhe recusada pelo poder da Convocação-Produtora oculta em si a mais perigosa ameaça para a Humanidade do Homem.

Impõe-se portanto a seguinte pergunta:

  1. C) ONDE SE REVELA AINDA UM CAMINHO PARA A DIMENSÃO PRÓPRIA DO HOMEM?

Se o poder da Convocação-Produtora domina a totalidade do mundo, não haverá em seu exterior nenhuma dimensão onde o caminho buscado se apresentaria; assim, resta apenas a possibilidade de tatear o caminho na área dominada pelo poder da Convocação-Produtora; no entanto, aqui a própria lida produtora obstaculiza a si mesma o caminho para a dimensão própria do Humano.

C.1) E se o poder da Convocação-Produtora guardasse em si um sinal precursor daquilo que é próprio do Homem e apenas dele?

Em tal caso, para experienciá-lo, devemos nos manter advertidos face ao império da Convocação-Produtora.

Isto exige que nós, ao invés de nos consumirmos na lida produtora e nos atermos à mera consideração do mundo da técnica, recuemos diante do poder da Convocação-Produtora: o passo de retorno é necessário. Mas retornar para onde?

No caso, que nos baste esclarecer a pergunta através de enunciações defensivas:

– o passo de retorno não significa uma fuga do pensamento para épocas já transcorridas; sobretudo, não significa um renascimento do começo da Filosofia-ocidental;

– o passo de retorno não significa ainda o “regresso”, em oposição ao progresso avassalador que se apropria de tudo e o transforma;

– o passo de retorno não significará portanto a inútil tentativa de suspender o progresso da Técnica.

O passo de retorno é antes o passo para fora da esfera na qual ocorrem progresso e “regresso” da Ocupação-Produtora; através deste passo reflexivo, o poder da Convocação-Produtora toca em algo que lhe faz obstáculo, sem com isto transformá-lo em objeto; neste passo mostra-se enfim o poder da Convocação-Produtora em sua relação com a ocupação humana do mundo enquanto disponibilidade [Be-stand] calculável.

Com isto se desvela o seguinte:

– o Homem é aquele provocado pelo poder da Convocação-Produtora para ocupar o mundo a título de disponibilidade [Be-stand] calculável;

– o poder da Convocação-Produtora necessita desta provocação ao Homem;

– o Homem assim provocado também pertence à dimensão essencial do poder da Convocação-Produtora;

– o fato de ser assim provocado caracteriza o elemento próprio do Humano na Era da Técnica.

Através do Homem, o poder da Convocação-Produtora manifesta aquilo que do mundo se pre-sentifica com o caráter de disponibilidade [Be-stand] calculável e assegurável; o que torna presente aquilo que se pre-sentifica (conforme antiga nomeação: o ente), nós o conhecemos como o Ser; o chamamento do Homem para a ocupação (a saber, a exploração técnica do mundo, dominante no poder da Convocação-Produtora) testemunha o pertencer do Homem à dimensão própria do Ser; este pertencimento constitui o elemento próprio de sua Humanidade, posto que somente fundado num pertencer ao Ser pode o Homem apreendê-Lo; apenas em presença deste pertencer é que se torna possível dizer o que significa razão, na medida em que esta pode ser representada como própria do Homem.

Um texto anterior (Que é metafísica? [1929]) caracteriza a situação ligada ao fato de o Homem corresponder ao apelo do Ser (mantendo, assim, um lugar seguro para a sua manifestação) com a afirmativa: – O Homem é o “lugar-tenente do Nada”.

Esta conferência (traduzida para o japonês já em 1930) foi de imediato compreendida em seu país, enquanto que na Europa circula ainda hoje a falsa interpretação que atribui niilismo à referida sentença; ora, o Nada nomeia aquilo que – da perspectiva do ente – jamais “é” algo ôntico, mas sim o Nada; todavia, este Nada determina o ente enquanto tal e é por isso designado o Ser; assim, “lugar-tenente do Nada” e “pastor (não senhor) do Ser” (Carta sobre o “humanismo” [1947]) dizem o mesmo; em todo caso, estas expressões manifestam-se ainda em uma linguagem insuficiente.

Entretanto, nesta carta importa-nos reconhecer unicamente o seguinte: Atentando para o imperar da Ocupação-Produtora – a saber, para a dimensão própria da tecnicização do mundo –, descobrimos um caminho em direção do que é próprio do Homem, aquilo que caracteriza sua Humanidade no sentido de ser solicitado pelo Ser, para o Ser; de fato, o Homem é aquele que é requisitado pelo poder da Convocação-Produtora e para ela (sua dimensão própria consiste em não pertencer a si mesmo); contudo, seguindo a ideia que nos mostra aquilo que persiste no mundo tecnicizado, ela nos confirmará a possibilidade de uma experiência decisiva, qual seja, pensando com suficiente radicalidade, o poder da Convocação-Produtora vela em si a promessa  de que o Homem pode alcançar a dimensão própria de sua determinação, se se mantiver preparado para longa imersão na mais problemática de todas as questões, a qual reflete sobre aquilo em que se oculta a dimensão própria do que o pensamento ocidental-europeu teve que representar até agora sob o nome “Ser”.

Enquanto o pensamento não experienciar o caminho que lhe foi mostrado com o passo de retorno, um erro muito comum propaga-se em tudo: Ele consiste no fato de se exigir que o Homem se torne senhor da Técnica, subtraindo-se assim de permanecer indefinidamente seu escravo; no entanto, o Homem jamais se tornará senhor daquilo que determina o elemento mais próprio da Técnica-moderna (é por isso que também não pode ser apenas seu escravo; a dialética do senhor e do escravo [cf. Hegel] não alcança o âmbito da situação que aqui vigora); logo, de modo algum o controle da energia atômica significará um dia que o Homem se tornou senhor da Técnica; pelo contrário, a necessidade de controle testemunha justamente o poder da Convocação-Produtora, revela o reconhecimento deste poder, trai a impotência da ação humana para dominá-lo; não obstante, ao mesmo tempo ela nos acena para, em acordo com a reflexão, nos inserirmos no mistério ainda oculto do poder da Convocação-Produtora.

Uma meditação desta ordem não pode ser mais realizada através da atual Filosofia ocidental-européia, mas também não sem ela, ou seja, sem que se procure encontrar um caminho próprio, pela renovada conquista da tradição filosófica.

A Modernidade – que se desenvolveu em poucos séculos e que foi preparada por dois milênios – não pode ser compreendida da noite para o dia por um dispositivo apenas humano, de sorte que a Humanidade do Homem, salva naquilo que lhe é próprio, possa encontrar nela um lugar para sua Morada.

(Freiburg im Breisgau, 18 de Agosto de 1963.)

(Carta escrita em resposta ao professor da Universidade de Tóquio [Japão], Dr. TAKEHIKO KOJIMA; texto originalmente publicado na revista Begegnung [Ano 01, Nº 04, 1965].)

FIM.

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O CAMINHO DO CAMPO (1948 / 1953)

_ Tradução do original alemão: JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS (*). _

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Heidegger – Floresta Negra

Desde o portão do Jardim do Castelo ele segue aos úmidos baixios do Ehnried. Sobre a amurada as antigas tílias acompanham-no, quer, pela Páscoa, revele seu percurso entre as sementeiras e as campinas que renascem, quer, pelo Natal, esconda-se na primeira colina sob montes de neve. Perto da cruz, toma a direção do bosque. Numa das margens, guarda um alto carvalho sob o qual repousa um banco entalhado na madeira crua.

Um jovem algumas vezes pousava no banco este ou aquele texto dos grandes pensadores, procurando desajeitadamente entendê-los. Quando as dificuldades eram muitas e nenhuma saída possível, o Caminho se oferecia, silenciosamente seguindo-lhe os passos pela trilha tortuosa, na vastidão do terreno inculto.

Novamente às voltas com os mesmos textos ou com os seus próprios problemas, o pensamento retorna à trilha aberta pelo Caminho. Este, sob os pés, está igualmente próximo do pensador e do camponês que na madrugada segue para a colheita.

Ao passarem os anos o carvalho traz à lembrança os jogos infantis e as primeiras decisões. Quando no coração do bosque por vezes um tombava sob os golpes do lenhador, atravessando o matagal e as clareiras iluminadas o pai partia em busca da madeira para a sua oficina. Nos intervalos dos cuidados com o relógio do campanário e com os sinos (os quais mantém íntima relação com o Tempo e a temporalidade), ali ele trabalhava bem disposto e concentrado.

Os meninos faziam barcos das cascas do carvalho. Com banco para o remador e timão, os barcos flutuavam no Mettenbach ou no lago da escola. Nessas brincadeiras as grandes travessias alcançavam termo rapidamente, retornando todos ao porto. (Pairando quase imperceptível sobre as coisas, uma aura guardava-lhe o sonho. O espaço livre era velado pelos olhos e pelas mãos da mãe. Tudo acontecia sob sua discreta disponibilidade.) Essas travessias infantis nada sabiam das incursões que transcendem todas as margens. E já então a consistência e o cheiro do carvalho começavam claramente a falar da lentidão e da constância com que a árvore cresce. O próprio carvalho garantia que apenas esse crescer pode inaugurar o que permanece e frutifica. Então crescer é dispor-se à imensidão dos Céus, mas também enraizar-se na obscuridade da Terra. Pois o verdadeiro e autêntico apenas alcança a maturidade se o homem souber abrir-se ao mais iluminado Céu e abrigar-se na sombria fertilidade da Terra. O carvalho diz isto sempre, ao lado do Caminho seguro de seu curso.

O Caminho guarda o que existe ao redor, provendo a cada um o que lhe pertence. Os mesmos campos e encostas seguem-no nas estações, renovando a cada vez a proximidade. Quando então acima do bosque a silhueta dos Alpes perde-se no crepúsculo; quando então entre os outeiros, numa manhã de Verão, a cotovia lança-se rapidamente ao Céu; quando então o vento leste leva a tempestade para os lados em que dorme a aldeia natal da mãe; quando então ao anoitecer o lenhador traz o feixe de gravetos para a lareira; quando então a carroça dirige-se lentamente para o celeiro, rangendo nas irregularidades do terreno; quando então as crianças colhem as nascentes primaveras nas margens do prado; quando então a neblina demora suas sombras sobre o vale, ao longo do Caminho, sempre e por todos os lados, ouve-se o chamado do Mesmo.

O Simples guarda o mistério do que permanece e do que é nobre. Apresenta-se de repente aos homens, mas precisa de muito tempo para crescer e amadurecer. A prenda que oferta refugia-se no coração do Mesmo. Pois o que no Caminho demora e amadurece, em sua amplitude e plenitude doam o mundo. Como escreve o velho Mestre Eckhart, com quem se aprende a ler e a viver, é no que sua linguagem cala que Deus revela-se Deus.

Todavia, o chamado do Caminho faz-se ouvir apenas se homens nascidos ao seu redor forem capazes de atendê-lo. Seriam então servos (e não escravos) de sua ascendência. Inutilmente o homem busca dominar o planeta através de planejamentos, pois não se abre ao chamado do Caminho. Que não possa ouvir a palavra do Caminho – esta a ameaça ao homem atual –. Seus ouvidos dispõem-se apenas ao barulho das máquinas, tomando-o pela voz de Deus. Assim, o homem se dispersa – e erra –. O Simples parece linear aos desatentos. A linearidade entedia. Ao seu redor os entediados só percebem o repetitivo. Perdeu-se o Simples. Esgotou-se sua força silenciosa.

O número dos que sabem o Simples um bem conquistado diminui sem dúvida rapidamente. Contudo, em toda parte esses poucos permanecerão. Graças à tranquila força do Caminho, sobreviverão ao brutalismo da energia atômica, criada pela arrogante razão do homem para destruir suas próprias realizações.

O chamado do Caminho desperta o desejo pelo espaço livre e quando ouvido transforma o desespero na serenidade definitiva. Esta se opõe à crônica insatisfação do que se faz “por fazer”, pois buscado apenas por si mesmo o fazer promove o que nadifica.

No ar mutável com as estações brota do Caminho uma serenidade sábia cuja melancolia é muitas vezes aparente. Este saber feliz sorri discretamente. Ninguém o conquista se já não lhe pertencer, e os que o têm, devem-no ao Caminho.

Reúnem-se no Caminho a tempestade do Inverno e o dia da colheita, a irrupção abrupta da Primavera e o tranquilo poente do Outono. Surpreendem-se nele, reciprocamente, a alegria da juventude e a sabedoria da maturidade. Tudo porém aí soa em uníssono, canção que o silêncio do Caminho entoa de um lado a outro.

A serenidade sábia abre-se para o Eterno. As aldravas de sua porta foram moldadas por um habilidoso ferreiro com os mistérios da existência.

Dos úmidos baixios do Ehnried o Caminho regressa ao Jardim do Castelo. Subindo a última colina sua estreita senda supera uma depressão e alcança a amurada da Aldeia. Uma delicada luminosidade desce das estrelas e se estende sobre o pequeno mundo. A torre da igreja de São Martin ergue-se atrás do Castelo. Perdendo-se na noite, soa aos poucos, quase hesitante, o sino das onze horas. Nas cordas do velho sino (cujo bizarro e sombrio perfil ninguém esquece), antigas mãos de menino se aqueciam rudemente.

Depois da última hora o silêncio se aprofunda. Desce aos sacrificados prematuramente em duas guerras mundiais. O Simples torna-se então mais Simples. O Mesmo transcende, liberta. O chamado do Caminho do Campo ouve-se bem agora: Fala a alma? O mundo? Deus?

Tudo fala do aquiescer que conduz ao Mesmo. O aquiescer não toma. O aquiescer provê. Provê a força inesgotável do Simples. O chamado do Caminho conduz-nos então à longínqua Origem, devolvendo-nos a Terra Natal.