Sobre Marcos E. F. Marinho

Psicólogo e Mestre em Psicologia pela PUC SP, com pesquisa sobre família, práticas educativas parentais e organizações socioeducativas. É professor e supervisor de estágio da Faculdade de Psicologia, da Universidade Paulista, UNIP (Campus Sorocaba). Presta atendimento e orientação psicológica em consultório. Desenvolve projetos sociais e educativos para organizações públicas e privadas, além de ensino e pesquisa para instituições acadêmicas.

Inquietude e pesar em compasso de espera

 

Por Irene Borges-Duarte |

Fonte: https://setemargens.com/inquietude-e-pesar-em-compasso-de-espera/

Estamos a viver um tempo estranho, em que, de repente, o nosso dia-a-dia deixou de ter a dimensão tranquilizadora, que é garantida pelo habitual cumprimento das tarefas de todos os dias e pelo encontro confiado com aqueles que enchem a nossa existência, no nosso habitual fazer pela vida. A habitualidade rompeu-se. Nada acontece da mesma maneira que antes. A fórmula de “trabalhar a partir de casa”, cuja prática procura ser generalizada, não constitui propriamente um hábito alternativo, e está longe de proporcionar a confiabilidade que, em geral, só o agir sedimentado assegura.39277_291886260926806_171987899_n

Este sentimento de estranheza não se dá do mesmo modo com toda a gente, mas acontece a toda a gente, no seio deste mundo que é o nosso: não só aqui, no nosso entorno mais próximo, mas também no mundo que nos chega pelos meios de comunicação e que, não por estar mais longe, nos é, agora, menos próximo. Tanto que nos entra pela quotidianidade dentro, trazendo-nos a presença sub-reptícia de um passageiro nefando e inesperado, em que somos obrigados a reparar.

Como disse, há pouco, a este propósito, José Gil: “Graças ao coronavírus, e pelas piores razões, o homem comum tem agora, ao longo do seu tempo quotidiano, a experiência da globalização existencial. Vivemos todos, simultaneamente, o mesmo tempo do mundo.” (Gil, 16/03/2020, O Medo, n-1 Edições).

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De repente, deixamos de ter uma vida que viver, para passar a ser reféns de um outro tempo, em que a morte dos outros se torna uma ameaça que pesa sobre todos, e uma mágoa que nos dói, como se fosse própria. Isolados, na ilha que é a nossa morada, ou talvez – o que é bem pior – no reduto onde nos confinaram, em vez da que de verdade é nossa casa, o mundo invade-nos virtualmente, sem que possamos sentir-nos vivendo dentro dele. Porque é disso que se trata: de ficar de fora do mundo real, sem deixar, porém, de o engolir em forma de notícia imparável do que continua a acontecer e persiste em pesar no nosso novo dia-a-dia. Uma frágil torre de marfim, feita de inquietude.

Continuum, staccato, carpe diem

Não é, decerto, o mesmo o que se passa com quem, pela sua profissão, se vê a braços com as consequências da epidemia e do seu tratamento. Nos hospitais, nas residências de anciãos, nas instâncias de assistência primária, em vez de se estar fora, está-se em pleno centro dos acontecimentos: no centro do mundo. Mas não é menos estranho o tempo vivido desse modo: essa voragem, que rouba esse outro dia-a-dia que era o de antes. Porque o stress de agora não é o stress de antes. A entrega temerosa de agora, na sua generosidade e na sua responsabilidade,  não é o compromisso do profissional, que sabe o que tem de fazer para cumprir a sua função habitual. Todo e cada um de aqueles que agora vivem momento a momento na vizinhança do vírus, sabe que é um ser humano em risco, em igual condição que o doente ao seu cuidado, e toda a sua vida se sente estar à beira do encontro com o mal. O quotidiano é outro: a palavra já não significa a mesma coisa, já não evoca um continuum, mas um staccato, em que em cada passo dado se escuta o carpe diem.

O tempo da campânula e o tempo da voragem distinguem-se, pois, mas têm em comum o peso da ameaça e da dor, que os une num mesmo intervalo de vida, vivida sob a forma de estar suspensa.É um compasso que ecoa no ar, que nos envolve e atravessa, e de que nos guardamos de respirar.

O sentimento da ameaça invisível paira, no ambiente fechado, como inquietude. A cautela ante o ataque insidioso infiltra-se, no local de trabalho, como medo. Ambas as formas de viver este tempo revelam a clausura, o estar encerrado numa atmosfera rarefeita e potencialmente nociva.

E, contudo, o planeta, alheio a esse perigo, respira e entra ele próprio numa outra pausa relativa, resiliente: a do deter-se do crescendo da poluição das indústrias e dos empreendimentos humanos de exploração, agora quase suspensos.

Mas não é só o tempo que se converte num uníssono denso e silencioso. É também o seu corpo vivo: um colectivo na condição de exposto e de solidário, necessitado de manifestar-se unido nessa mesma vulnerabilidade humana. O individual perde protagonismo no seio da ameaça global e a intimidade revela-se na sua porosidade relacional, aberta ao todo – e não apenas àqueles com quem se compartilha a vida, aos amados, aos amigos. Na ilha temporal, todos somos um. Em cada um que morre, somos nós que morremos. O colectivo deixa de ser abstracto. Torna-se um corpo orgânico, em que cada um se sente mais que mera parte do todo: o todo habita-o e dói como um ressoar interno, que não se esgota.

E, contudo, tudo isto passará e o tempo voltará a ser o de antes. Voltaremos a deixar-nos levar pelo largo da quotidianidade banal das nossas vidas, cheias de horas, minutos e segundos, de intervalos para refeições e para lazer, de ocupações profissionais que não nos arrancam as entranhas, nem fazem perigar os nossos próximos. O tempo voltará ao seu caudal conhecido, a vida aos seus gozos e rotinas. Inexoravelmente. Sim. Voltará o estender-se conhecido dos horários de trabalho, voltarão os momentos felizes e  descuidados do jogo, do descanso, do abraço e do amor.

Preconizar possibilidades de mudança

Nada teremos aprendido?

Na verdade, nada haveria a aprender, que não devesse já ter sido aprendido, com excepção do caso singular desta epidemia, deste vírus e das suas características específicas. Uma questão científica, portanto, a resolver por aqueles que têm a formação e a função adequadas à investigação do assunto e à determinação do modo eficaz de combate deste mal e da prevenção da sua expansão, bem como de outros futuros, com ele potencialmente relacionados. Ao fim e ao cabo, um problema técnico. Um desafio técnico à nossa sociedade do conhecimento e informação, politicamente organizada e culturalmente apetrechada para enfrentar situações de risco e mesmo de catástrofe. Um estímulo à descoberta de novos medicamentos, ou vacinas, cuja produção será assegurada pelas indústrias farmacêuticas mais importantes. É isso que ficará: o estimulante desafio à nossa capacidade de resposta. Isso e o pesar pela perda de tantas vidas, que se não pôde evitar.

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De nada nos terá servido, então, este doloroso episódio?

A história ensina-nos, porém, aquilo que a nossa experiência de vida não quereria aceitar: que situações como a que actualmente vivemos se repetem, em episódios mais ou menos longos, mais ou menos eficazmente enfrentados, sem que nada se altere dos projectos de mundo no meio dos quais irromperam. A elaboração do vivido fica, naqueles que foram capazes de a fazer, como algo que marcará para sempre as suas vidas. Mas na consciência colectiva, politicamente maleável, traduzir-se-á em mais uma vitória contra o inimigo insidioso, qualquer que tenha sido a sua origem e significado. O que foi um corpo uno, ao experimentar a situação limite, desmembra-se nos infinitos fragmentos individuais que constituem a sociedade, em que nos juntamos para cumprir fins parciais, ordenados pela utilidade comum e sequiosos de imagens gratificantes. A unidade do sentimento, que nos uniu, desfazer-se-á, e o coração voltará a ser só uma bomba do sangue que alimenta as células.

Tudo voltará a ser como já estava lançado a ser.

Filósofos e críticos da sociedade e dos seus sistemas de desenvolvimento têm, porém, por obrigação dizê-lo, seja preconizando possibilidades de mudança, seja desenhando possíveis rumos que esta possa ou deva tomar, seja denunciando os interesses criados, que a impedem. Com esperança de que as suas palavras ajudem a ver mais claro, mas também com a lucidez de quem sabe que só ver não chega. Quem pensa sabe que não sabe como fazer para que essa mudança aconteça, sabe que não pode ter a eficácia omnipotente do desejo, sabe que os dados estão lançados e a mão que os jogou é impessoal e oculta, alheia a vontades. Mas o seu papel – o compromisso do intelectual – hoje, como ontem e sempre, consiste, apesar disso, em dizê-lo.

Irene Borges-Duarte é professora na Universidade de Évora

Confissões

DISTIMIA

(…) eu não sou capaz de compreender inteiramente o que sou. Será o espírito demasiado estreito para conter a si mesmo? Onde, então, está o que ele não pode conter de si? Estaria fora dele, e não nele? Como, então, o contém?

Esta idéia me provoca grande admiração, e me enche de espanto. Viajam os homens para admirar as alturas dos montes, as grandes ondas do mar, as largas correntes dos rios, a imensidão do oceano, a órbita dos astros, e se esquecem de si mesmos!

(Santo Agostinho, Confissões, Livro Décimo)

Serviço de Atendimento Online

Agora, estou abrindo a possibilidade de agendamentos e dos atendimentos serem feitos por skype, hangout, telegram e WhatsApp. Esta opção já existia para pessoas que moravam no exterior, mas diante da realidade da pandemia e a necessidade de adoção de isolamento e distanciamento social, será estendida para todos os que necessitarem de apoio, suporte e acompanhamento.

Maiores informações:

15 991712581

psicomarcosmarinho@gmail.com

 

Comunicado CRP/SP

Cara/o psicóloga/o,

Tendo em vista a publicação da Portaria Nº. 639, de 31 de março de 2020, do Ministério da Saúde, que dispõe sobre a Ação Estratégica “O Brasil Conta Comigo – Profissionais da Saúde”, voltada à capacitação e ao cadastramento de profissionais da área de saúde, para o enfrentamento à pandemia do coronavírus (COVID-19), divulgada, no dia de hoje (02/04/2020), informamos que o Conselho Federal de Psicologia fez conversas iniciais com o Ministério da Saúde e o CRP de SP está mobilizado, acompanhando as discussões e avaliando junto ao departamento jurídico quais são as implicações desta ação.
É importante destacar que somos todas e todos profissionais da saúde e temos o dever ético de atuar nessa situação de emergência e calamidade pública.
Nos próximos dias haverá reuniões do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Conselhos Regionais de Psicologia e outras entidades profissionais do estado e do país, de forma a construirmos, na medida do possível, posicionamentos coletivos.

Pedimos compreensão e informamos que tão logo tenhamos as orientações elas serão comunicadas à categoria.

XVI Plenário do CRP SP
(Gestão 2019-2022)

Passage du silence


Deve haver em algum beco sombrio, em alguma melodia dissonante, em algum sonho não tão profundo, no fluir dos ventos mais frios, para além daquela ponte talvez…. Deve haver o antídoto para os corações partidos. A cura para as feridas que as paixões nos causam. A solução inevitável e secreta para a vida que machuca. Para tudo aquilo que nos tiram. Para tudo o que nunca poderemos tocar ou ter. A redenção para os erros cometidos. A satisfação para o vazio que nos inunda quando a noite cai. O caminho certo escondido entre as folhas em que pisamos. Os espinhos dissolvidos pelas mãos do desejo. A anestesia para a dor das traições, das perdas, dos venenos, das armadilhas que nós mesmos armamos. A cura para as saudades que não cicatrizam. Deve haver, escondida em algum abismo, a escolha certa, a palavra exata e mansa. O tempo paralisado nos mostrando que tudo é possível se os espelhos também pararem de nos acusar com sua fúria. Um sussurro, uma brisa que nos arrepie a pele e nos faça ver que o amor não habita a mesma medida do tempo. E que esse sangrar interno que nos corrói será um dia lavado pelas tempestades que enfrentamos. Deve existir, em algum beijo esquecido, no toque das tuas mãos nas minhas, no fechar dos olhos por breves instantes… Deve haver o alívio que esperamos. O doce desmaiar que guiará nosso corpo latente e nu até o ponto mais inimaginável e fantástico. Um barco a nos esperar e acolher. A própria alma apontada para o destino, logo ali. Ainda temos tempo.
Por Van Luchiari ©

Veredas no sertão

“O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam…”

  • João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas.

O igual não dói

Casal-na-Chuva

“Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”, diz o filósofo sul-coreano, Byung-Chul Han.