ARTIGOS E RESENHAS

Angústia e destino

Por Dulce Critelli
Do site Para Evoluir

Eu ou eus...

A angústia em se descobrirem completamente perdidas, sem saber que rumo tomar e qual é mesmo o seu destino, é o que mais frequentemente tem levado as pessoas a bater à porta do meu consultório. E, certamente, a de todos aqueles que trabalham com alguma terapia. É um problema humano fundamental, ainda que profundamente doloroso. E, em cada caso, perfaz-se por meio de uma história totalmente exclusiva.

Se aparecemos neste mundo como indivíduos únicos e irrepetíveis, essa singularidade não está definida nem acabada. Está ao nosso encargo deixar que ela aflore e se desenvolva. Quando nos perguntamos quem somos e a que viemos, é a essa exclusividade a que nos referimos. Alguns a chamam de “daimon”, como os gregos. Outros a nomeiam com outros termos: gênio, eu superior, alma, espírito, anjo, duplo.

Pode também ser vista como um feixe de possibilidades, um complexo de dons ou talentos.

O certo é que cada um de nós sabe, no seu íntimo, que algo nos torna diferentes dos outros. E sabemos, também, que essa exclusividade só se realiza quando agimos de acordo com quem somos. Por isso é tão importante sabermos se temos alguma missão nesta vida. Ao descobrir o que chamamos de missão, descobrimos quem somos.

Costumamos entender mal, todavia, o que seja destino e/ou missão de vida, porque geralmente pensamos que nosso destino nos foi dado, quando da época do nosso nascimento, na forma de uma sentença clara e inequívoca. Esperamos algo assim como o que o oráculo diz a Édipo: “Matarás teu pai, casarás com tua mãe e terás filhos com ela”.

Adiantou a Édipo saber antecipadamente o seu destino? Ele não o queria e tentou fugir da sua predição. Porém, não sabia que era filho adotivo. Vai para outra cidade. Mata um homem que se interpõe em seu caminho, casa com a rainha que ficara viúva e, no fim da história, descobre que cumpriu o desígnio que lhe fora dado. Édipo atrapalhou a si mesmo, querendo ser soberano em relação à sua vida. Fazemos o mesmo conosco, quando acontece de estarmos convictos de “para que viemos”. Especialmente porque forçamos a sua realização. E porque tendemos a interpretar tudo sob a ótica viciada dos nossos preconceitos, das nossas crenças e dos nossos hábitos. Como o herói da tragédia de Sófocles, estamos sempre num ponto cego em relação a nós mesmos e a todas as possibilidades da vida.

Se quisermos compreender a nossa missão, temos de descobrí-la aos poucos.

Saber ouvir nossos mais profundos desejos, acolher nossas intuições, reparar onde pousa nossa alegria, quando ficamos em paz conosco, em que situações sentimos ter realizado o melhor de nós mesmos.

Nossa missão ou nosso destino também se anuncia em sinais menos positivos. Grande parte de nossas doenças, dos nossos mal-estares repetitivos, assim como de situações críticas, dificuldades e malsucedidos recorrentes, costuma ser choros do espírito, lamentos de uma alma desatendida.

Por isso nossa angústia se mistura a uma tristeza ancestral, que parece vir de muito mais longe de que nós mesmos. Trata-se do nosso ser cobrando a sua manifestação. Ao darmos ouvido à tristeza e à angustia, começamos a desobstruir o caminho para a sua chegada. É um movimento necessário, pois, quando nosso destino quer se manifestar, a sua força é avassaladora.

Nosso destino é um advento, e não uma fatalidade. Um advento que nenhum medo deveria impedir, e nenhuma resistência, oferecer-se. Ele não chega como uma espada sobre as nossas cabeças, mas como uma benção sagrada. Devemos vê-lo mais como um beijo dos deuses do que como um apocalipse.

*Dulce Critelli, terapeuta-existencial e professora de filosofia da PUC-SP, é autora de “Educação e Dominação Cultural” e “Analítica de Sentido” e coordenadora do Existentia -Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana. E-mail: dulcecritelli@existentia.com.br

 

 

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