ARTIGOS

Inspiração na Fenomenologia Existencial

Por Marcos E. F. Marinho

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É na fenomenologia que busco os aportes para me auxiliar a organizar e compreender a experiência vivida de meu paciente e as questões que dele emergem. Busco pela observação uma compreensão não apriorista. Sem rótulos daquilo que se abrirá diante de mim, ao contrário, proponho junto com meu paciente, um caminhar, que desenvolve, no processo psicoterapêutico, uma descrição daquilo que se vê, e assim, possibilitar que os sentidos se desvelem, a todos os implicados, psicólogo e paciente.

O homem e seu tempoQuando estou diante de alguém ali na clínica, advogo uma observação, que leve em conta que o ser humano que busca meu apoio e ajuda, já existia em sua singularidade de percurso antes de uma possível reflexão teórica de minha parte, por isso frequentemente minha postura e de todos os psicólogos que conheço e leio, é curiosa, “aprendente” e indagadora, de modo a se juntar elementos para uma descrição direta do fenômeno que se apresenta ali diante de nossos olhos e ouvidos a partir da narrativa do paciente. Ou seja, um caminho à coisa mesma, percorrendo algumas veredas abertas, que o fenômeno, ao mostrar-se, permite-nos ver.

Diante da narrativa do paciente, um fenômeno pode se desvelar, Heidegger fala desse trabalho de desvelamento do fenômeno, de retirar do encobrimento, de desocultar, como uma busca por uma verdade que os gregos definiam como alétheia.

Desta forma, para ele, Heidegger, a não verdade não seria uma falsidade, mas um disfarce, um encobrimento, como algo velado.  Muitas vezes essa verdade do ser, se oculta inclusive do próprio ser (na terapia, do paciente)

Nesta busca da verdade – alétheia, o retorno à coisa mesma se dá na forma como podemos tornar algo manifesto, deixar e fazer ver, mostrando-se a si mesmo, ou melhor, aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo.

Num processo terapêutico o fenômeno trabalhado, traz velamento ou encobrimento, muitas vezes pelo cotidiano, por sistemas tradicionais, teorias, ideologias e crenças. Também se considera que o fenômeno traz as marcas da sua historicidade, traz as mudanças e movimentos que situam e dão seus contornos, tal qual se apresenta no presente, aqui e agora.

 “Lenha é um antigo nome para floresta. Na floresta há caminhos que no mais das vezes, invadidos pela vegetação, terminam subitamente no não-trilhado, eles se chamam caminhos da floresta. Cada um segue um traçado separado, mas na mesma floresta. Muitas vezes parece que um se assemelha ao outro. Contudo, apenas assim parece. Lenhadores e guardas da floresta conhecem os caminhos. Eles sabem o que quer dizer estar num caminho da floresta.” Heidegger, Martin. Holzwege (inéditas) apud STEIN, E. 1999.

Quando busco aportes da fenomenologia para dar suporte a minha atuação como psicólogo clínico, vejo nos trabalhos de Heidegger, que considerava o seu método fenomenológico e hermenêutico, os conceitos que se referem ao movimento de dirigir a atenção para trazer à luz o que se oculta naquilo que se mostra, mas que é precisamente o que se manifesta nisso que se mostra.

DesafiosAssim, o trabalho hermenêutico heideggeriano, enquanto uma interrogação pelos sentidos, visa interpretar o que se mostra, isso que se manifesta aí, mas que, no início e na maioria das vezes, não se deixa ver (se oculta). Eis a beleza do trabalho de interpretação (do psicólogo junto com seu paciente) que a condição de psicoterapia propicia.

Importante que se diga que a concepção de sentidos adotada em meu trabalho como terapeuta se inspira na concepção heideggeriana, que se difere do uso corriqueiro da palavra “sentidos” como sinônimo de significado. Para fazer esta distinção, vi em estudos anteriores, nos textos da professora da PUC/SP, Dulce Critelli (1996), em que ela fala que a fenomenologia vê significado como um conceito de algo; uma definição a respeito do que é e como é algo, portanto tem uma concretude e uma permanência.

“(…) os significados estão aderidos às coisas e são socializados, testemunhados e admitidos por todos nós” (Critelli, 1996:43).

Já o sentido não é compreendido como sinônimo para o termo significado, mas como direção, como norte, como destinação. Assim, ao pensarmos sobre um sentido de um fenômeno, estamos buscando compreender o que é e como é o manifesto de algo.

Em meu entendimento, a psicoterapia visa desvelar o sentido que ser faz para cada um de nós naquele momento e naquele tempo e partir daí, todo um trabalho de aprendizagem do “cuidar de si” e de escolhas existenciais passa a ser feito.

Segundo Critelli (1996), o desvelamento de um sentido ocorre quando algo sai de seu ocultamento e se revela em uma de suas possibilidades, num determinado contexto, numa determinada época.

Eu ou eus...Fico a pensar naquilo que se convencionou a chamar de sintomas, serem mais do que um “juntar de peças de um quebra cabeça” psíquico, mas formas de expressão de um sentido do ser e do existir no mundo que não dá conta de si, uma alienação do ser que provoca sofrimentos, angústias e experiências dolorosas de “sem saídas” existenciais.

É importante que se diga, na psicoterapia as expressões de paciente possibilita que algo saia do ocultamento, não no total de suas possibilidades, mas totalmente numa de suas possibilidades.

No desenvolvimento do trabalho e da lida do psicólogo, ali no seu consultório (por meio da escuta atenta, da relação estabelecida com o paciente, dos seus registros sobre a narrativa trazida e pelo intrigante trabalho de interpretação) que, de certo modo, surge a possibilidade de junto com àquele que busca por ajuda, descortinar toda uma construção reveladora de como os seres humanos se relacionam com as coisas, com os outros e com o mundo; e é na fenomenologia existencial que buscamos subsídios para esta compreensão.

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