Adolescentes e jovens

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Somos todos testemunhas

O que leva os jovens a expor 
nas redes sociais uma intimidade primeiramente consentida 
e só depois compreendida?

 

Por Dulce Critelli – Carta Fundamental

O homem é um animal falante e mortal, dizia Aristóteles. E, como ele, muitos outros filósofos associam a humanidade do homem à condição da fala. Heidegger dizia que construímos não só nossa humanidade, mas também nossa singularidade através da linguagem.

Para Hannah Arendt, falar nos iguala aos outros tanto quanto nos distingue deles. Ao falar, os homens se comunicam uns com os outros, e a palavra comunicar quer dizer tornar comum.  Como os homens falam e agem, falar e agir estão sempre associados, à medida que as palavras dão significado aos nossos atos e, assim, mostram nossas intenções, nossos princípios e motivos e, enfim, revelam a pessoa que somos. Assim, se palavras e atos estiverem divorciados, as palavras tornam-se vazias e os atos ficam brutais.

Tanta filosofia tem o propósito de encontrar argumentos para compreender por que nosso modo de comunicação precisa da exposição cada vez mais veloz e abrangente de nossos pensamentos, sentimentos, gestos e imagens. Um fio de luz para compreender essa necessidade não apenas de existir, mas de registrar e divulgar os passos e os traços da nossa existência. E uma razão para entender por que o suicídio se oferece como saída para uma exposição inadequada.

A filosofia contemporânea também revelou que a realidade não subsiste em si mesma, mas só aparece como realidade quando é percebida pela nossa consciência, e se essa consciência for compartilhada com outros. Do mesmo modo, a realidade do nosso eu só é assegurada quando outros nos veem, nos ouvem, quer dizer, nos testemunham. É o testemunho dos outros que nos torna reais, e que efetiva tudo o que e como fizemos e dissemos.

As redes sociais são redes de testemunho. Em todas as épocas as comunidades tiveram um espaço público, um cenário em que podiam aparecer para os outros e exibir sua excelência, ou seu virtuosismo. Os gregos inventaram a ágora e os modernos, os salões. Os artistas ainda têm palco e plateia. No período da monarquia francesa, os nobres cercavam os reis em seus palácios para vê-los dormir, comer, banhar-se, defecar, copular… Depois, instalada a República, aqueles que haviam conseguido superar a pobreza e enriquecer abriam suas casas para que todos pudessem ver os bens adquiridos. Durante a revolução americana, os homens se sentiam reconhecidos em sua mera existência e em sua excelência quando se tornavam representantes de seus concidadãos e se expunham nos âmbitos políticos. E isso era tão importante para eles que chamavam a essa exibição/testemunho de felicidade pública.

Mas todos nós sabemos que feitos e discursos têm vida curta, duram apenas o tempo de sua própria realização. O virtuosismo de um violinista, por exemplo, dura somente o tempo da execução da música, assim como o vigor de um discurso termina quando o expositor para de falar, e a performance de um acrobata quando finda seu contorcionismo. A excelência e a existência de um gesto ou de uma palavra são fugazes e, por isso mesmo, podem ser esquecidas. Só quando ganham alguma forma de registro, como publicações, fotos, filmes… têm a chance de se perpetuar.

A febre de celebridade que toma conta do nosso tempo leva as pessoas a se lançarem ávidas sobre qualquer oportunidade de exibição e reconhecimento, mesmo sem nenhuma excelência ou virtuosismo. Mas se o testemunho dos outros e os registros salvam nossa existência e a afirmação de nossa singularidade da dissolução e do esquecimento, podem também dar uma persistência indelével ao que gostaríamos de manter no ocultamento. Ao garantir nossa exposição, esses registros e testemunhos também nos mantêm presas da interpretação e da memória dos outros.

Um gesto ou uma palavra que foram apenas testemunhados e revelados pela fala dos que nos presenciaram podem ser alvo de dúvida e negativas, ou mesmo ser considerados mentiras, difamações, maledicências. Mas isso não serve para os registros, sobretudo de imagem e sonoros, divulgados na mídia e, especialmente, nas redes sociais. Eles parecem ser incontestáveis.

Quanto mais idade temos, mais cresce o desejo de recolhimento e de estarmos abrigados da opinião pública. Isso não acontece com os jovens, que dependem dessa exibição como uma ponte para o mundo. Eles precisam se afirmar na sua mera existência e no que os tornaria menos infantis e submissos aos pais. Precisam mostrar sua ousadia, sua irreverência, sua sexualidade, sua insubordinação, seu poder de desacato às normas e à moral.

Talvez por isso se exponham sem pensar e sem querer, sem saber diferenciar o privado do que é público, sem ainda poder avaliar a preciosidade da intimidade e o valor inestimável da vida e da própria singularidade. A marca do testemunho é que ele torna os acontecimentos irreversíveis e o mal, sem remédio. Talvez seja por isso que, quando expostas nas redes sociais em uma intimidade primeiramente consentida e só depois compreendida, adolescentes tirem a própria vida.

Publicado originalmente na edição 55, de janeiro de 2014

 

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Ninfomaníaca: a compulsão para fugir da angústia

Filme demonstra como tentativas de autoproteção para abrandar sentimentos de desamparo podem se transformar em sintomas

Depois de Anticristo e Melancolia, o diretor dinamarquês Lars Von Trier apresenta Ninfomaníaca, o terceiro filme com enfoque na depressão. Com “estrutura literária”, tem dois volumes (só o primeiro foi lançado) e oito capítulos. A atriz Charlotte Gainsbourg interpreta Joe, uma mulher que assume não conseguir controlar seus impulsos sexuais. Num dia escuro e chuvoso, caída na rua e ferida, é encontrada por Seligman, vivido por Stellan Skarsgard. O homem de meia-idade, paciente e compreensivo, leva-a para casa e, ao perguntar a ela sobre o que havia acontecido, Joe o adverte de que vai contar uma história longa, que poderá chocá-lo. ninfomaniaca_larsvontrier_compulsao_1__2014-03-26164855

Num discurso carregado de autorrecriminações, afirma por ser obcecada por sexo desde a infância e descreve experiências como a perda da virgindade aos 15 anos e a competição com uma amiga para conquistar homens. Chega a ter mais de dez relações sexuais por dia com pessoas desconhecidas, o que exige dela uma “organização de horários” para atender aos próprios ímpetos. Nas cenas com poucas cores, predominam tons escuros e destaca-se o olhar triste da protagonista, repleto do desencanto de quem tenta encontrar, na quantidade, algum conteúdo significativo para a vida.

Apesar de entrar em contato com a culpa quando fala de suas experiências, Joe vive a impotência e a solidão, num vaivém de encontros anônimos, desprovidos de vínculo e pautados por necessidades primitivas. Para ela, o afeto precisa ser evitado a qualquer custo, compulsivamente.

Leia texto completo

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Estudos.

A Privação do Vínculo Afetivo Materno pode Contribuir para o Ato Infracional do Adolescente na Atualidade?

 

Resumo: O estudo que se apresenta tem como objetivo principal entender a relação existente entre a privação do vinculo afetivo materno e os atos infracionais do adolescente na atualidade. As relações afetivas estabelecidas entre a mãe e seu bebê são fundamentais para assegurar a construção do psiquismo da criança, possibilitando um desenvolvimento saudável da personalidade e dos comportamentos sociais. É através do relacionamento seguro, continuo e intimo que a criança desenvolve a construção da sua auto-imagem e toma conhecimento do mundo exterior, que lhe é apresentado pela diferenciação do corpo materno. No entanto, a instituição familiar tradicional, composta pela triangulação, pai, mãe e filho sofreu inúmeras modificações ao longo do tempo que possibilitaram também mudanças nas relações parentais. No período atual, em virtude dos dinamismos sociais com a inserção da mulher no mercado de trabalho, a dedicação materna aos cuidados com a criança através de uma relação de proximidade e de afetividade ficou comprometida, devido à dupla jornada diária de trabalho que as absorve inteiramente em suas funções. Com a ausência da mãe e a privação do vinculo afetivo materno, as crianças e posteriormente, os adolescentes sentem dificuldades de se apresentar para o mundo social. É justamente, na atualidade que se verifica o aumento dos atos infracionais do adolescente, por isso, a partir da pesquisa bibliográfica com referenciais da psicanálise, etologia e da psicologia do desenvolvimento humano, pretende responder o objetivo principal desse estudo. No decorrer dos estudos, verificou-se que a privação do vínculo afetivo materno tem efeitos duradouros sobre a personalidade dos adolescentes que apresenta uma conduta antissocial buscando através do ato infracional, a reorganização do caos interior vivenciado pela falta do carinho, amor e da afetividade negligenciada pela privação materna.

Palavras-chave: privação, vínculo, adolescente, atualidade, atos infracionais.

 

Leia o artigo completo:

http://psicologado.com/atuacao/psicologia-da-familia/a-privacao-do-vinculo-afetivo-materno-pode-contribuir-para-o-ato-infracional-do-adolescente-na-atualidade

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