Um casamento temporário faz mais sentido do que um casamento pelo resto da vida

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Foto: Alexandre Delbos/Flickr

Vicki Larson – Site NEXO

Em novembro de 1891, o sexólogo britânico Havelock Ellis se casou com a escritora lésbica Edith Lees. Ele tinha 32 anos e era virgem. E como ele era impotente, eles nunca consumaram o casamento. Depois que passaram pela lua de mel, os dois viveram separados em o que eles chamaram de um “casamento aberto”. A união dos dois durou até a morte de Lee em 1916.

Isso não é o que muitos consideram um casamento modelo. Mas, talvez por conta do arranjo ser pouco usual, Ellis foi capaz de introduzir uma ideia que permanece até hoje tão radical e tentadora quanto era na época em que ele viveu: casamentos-experiência [o termo em inglês é trial marriage], nos quais ele via a possibilidade de casais explorarem uma união temporária com vários níveis de comprometimento que permitiam a eles terem relações sexuais, terem acesso a métodos anticoncepcionais e terem um divórcio fácil se desejassem, contanto que não tivessem crianças envolvidas nessas relações. Tal ideia pareceu atraente para muitas mentes progressistas da época, incluindo o filósofo britânico Bertrand Russell e o jurista de Denver Ben B Lindsey, que abraçaram as novas liberdades econômicas e culturais na era pós-vitoriana.

Enquanto Ellis deu um nome a esse tipo de casamento experimental ou temporário, outras pessoas já falavam em formas similares de união anos antes, incluindo o poeta alemão Johann von Goethe, que nutriu tal ideia em sua obra “As Afinidades Eletivas” (1809), e o paleontólogo norte-americano E. D. Cope que escreveu em seu livro “O problema do casamento” (1888) que o casamento deveria ter início com um contrato de 5 anos que cada cônjuge poderia encerrar ou renovar por mais 10 ou 15 anos, e se tudo corresse bem depois desse período seria firmado um contrato permanente.

Em 1966, a antropóloga norte americana Margaret Mead sugeriu uma versão de casamento que seria composto por duas etapas – um “compromisso individual” que seria apropriado para estudantes de faculdade com pouca renda e poderia ser facilmente desfeito ou então transformado em “compromisso parental” se eles estivessem prontos e desejassem passar a ter obrigações que envolvessem a criação de filhos. Em 1971, Lena King Lee, uma legisladora de Maryland, propôs um projeto de lei para a definição de um contrato de renovação de casamento, que permitisse que casais pudessem renovar ou anular os seus casamentos a cada três anos. Em 2007, um legislador alemão propôs que fosse definido um contrato de 7 anos; em 2010, um grupo de mulheres nas Filipinas propôs um contrato de casamento de 10 anos; e em 2011, legisladores na Cidade do México sugeriram uma reforma no Código Civil que permitisse que casais decidissem a extensão de tempo do seu compromisso marital, com um mínimo de dois anos.

Claramente, casamentos que duraram uma vida toda acontecem devido a algum tipo de revisão pela qual passaram. Apesar de todas as discussões e propostas, nenhuma lei nunca foi aprovada, e a ideia de um casamento renovável permanece assim, apenas uma ideia. Mas casamentos temporários têm sido praticados com sucesso por séculos entre indígenas do Peru, nos Andes, no século 15 na Indonésia, no Japão antigo e no mundo islâmico, assim como em outros lugares. E parece que estamos prontos para colocá-lo em prática novamente.

Em uma pesquisa recente, muitos millennials indicaram que estariam abertos para um “casamento beta”, no qual casais se comprometeriam em permanecerem juntos por um certo período de anos – sendo que dois anos parece um período adequado – após o qual eles poderiam renovar, renegociar ou se separar, como Jessica Bennett escreveu na revista “Time” em 2014. Apesar de não ter sido uma pesquisa científica, o resultado da enquete aponta para um desejo de ver o casamento como alguma outra coisa que não “até que a morte os separe”, que de fato não o é. Em 2013, 40% dos recém-casados já haviam sido casados pelo menos uma vez antes, de acordo com o instituto de pesquisa norte americano Pew Research Center. Desde que 10% dos primeiros casamentos não duram sequer 5 anos, um contrato de renovação de casamento parece fazer mais sentido do que nunca.

Nosso contrato atual – no formato “até que a morte os separe” – deve ter funcionado em épocas em que as pessoas não viviam por tanto tempo (de acordo com o sociólogo norte americano Stephanie Coontz, o casamento padrão em tempos coloniais durava menos do que 12 anos), ou quando mulheres morriam no parto possibilitando que o marido ficasse livre para casar novamente, diversas vezes (o que eles faziam), e quando homens de posses precisavam de mulheres para cozinhar, limpar e cuidar dos filhos e mulheres dependiam de homens para terem segurança financeira. Mas, essas não são as razões porque as pessoas casam hoje em dia. Ainda cumprimentamos os casais nos seus aniversários de casamento e sentimos nostalgia conforme os anos passam e vão se acumulando – 15, 25, 50, 75. Mas são esses anos de um casamento feliz? Nem sempre, muitos casamentos de longa duração são relações que não possuem mais amor nem uma vida sexual ativa e são muitas vezes cheios de rancor e ressentimento. Mas se eles durarem até um cônjuge morrer, sucesso!

Apenas a longevidade sozinha não deveria ser critério para indicar um casamento feliz e saudável. Melhor do que ficar em casamentos “até que a morte os separe”, casamentos renováveis iriam permitir aos parceiros alongar seu contrato matrimonial se estivessem de acordo ou encerrar tais relacionamentos sem o drama e choque que envolve um divórcio contencioso e sem prolongar dúvidas sobre o que deu errado. Como o finado ganhador do Nobel de Economia Gary S. Becker notou, se cada casal tivesse que personalizar seu contrato matrimonial com base naquilo que considera importante, não haveria mais um estigma social ou julgamento sobre decisões que são essencialmente privadas.

Se a sociedade está verdadeiramente preocupada com o declínio do casamento, talvez seja a hora de repensar o formato “até que a morte os separe”. E se noivas e noivos realmente desejam um casamento feliz, então é a hora de cada um deles ser responsável em definir quais objetivos e expectativas eles possuem em um contrato matrimonial renovável e dizer em voz alta ou por escrito – eu te escolho novamente, tantas vezes quanto sintam que isso faz sentido.

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Vicki Larson é uma renomada e premiada jornalista e co-autora do livro “The New I Do: Reshaping Marriage for Skeptics, Realists and Rebels” (2014). Ela mora em São Francisco, nos EUA.

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Sobre Marcos E. F. Marinho

Psicólogo e Mestre em Psicologia pela PUC SP, com pesquisa sobre família, práticas educativas parentais e organizações socioeducativas. É professor da Faculdade de Psicologia, da Universidade Paulista, UNIP. Presta atendimento e orientação psicológica em consultório. Desenvolve projetos sociais e educativos para organizações públicas e privadas, além de ensino e pesquisa para instituições acadêmicas.
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